Ferraresi fez o X. O protocolo antirracista sumiu no caminho até a súmula

Ferraresi sinalizou ao árbitro, mas gesto e relato desapareceram. Sem acusação precipitada, o caso expõe um rombo grave no protocolo antirracista.

25 de agosto de 2026

Ferraresi fez o X. O protocolo antirracista sumiu no caminho até a súmula

O placar registrou cinco gols. A súmula, curiosamente, não conseguiu registrar um X.

Na derrota do Botafogo por 3 a 2 para o Athletico Paranaense, Ferraresi fez o gesto previsto para comunicar um possível episódio de racismo: braços cruzados, formando o sinal que deveria acionar a arbitragem. O árbitro estava perto, viu a sinalização e conversou com o jogador. Depois, o jogo seguiu.

Até aí, já havia motivo para cobrança. A situação ficou ainda mais grave quando o relato oficial apareceu sem menção ao gesto, ao diálogo ou à razão pela qual Ferraresi procurou a arbitragem. O X desapareceu no trajeto entre o gramado e o documento.

É importante separar responsabilidade de precipitação. Não se deve apontar um autor, cravar uma ofensa ou condenar alguém sem apuração. O que se pode afirmar, porque foi visível, é que um jogador acionou o sinal antirracista e a engrenagem criada justamente para esse momento não funcionou como deveria.

Quando o gesto é público e o silêncio vira oficial, o protocolo fracassou.

Não é detalhe de preenchimento. Não é uma vírgula esquecida na papelada. A súmula é a memória institucional da partida, o documento que orienta denúncias, pedidos de esclarecimento, investigações e eventuais punições. Se um episódio dessa natureza não chega ao papel, ele corre o risco de ser tratado como se nunca tivesse acontecido.

E aconteceu, ao menos em sua dimensão objetiva: Ferraresi fez o X.

Um protocolo que depende de alguém lembrar dele

O gesto antirracista não foi criado para decoração, campanha de rede social ou fotografia de dirigente com semblante compenetrado. Ele existe para oferecer a jogadores e árbitros uma linguagem imediata diante de uma suspeita de discriminação. Feito o sinal, o mínimo esperado é que haja resposta clara: escuta do atleta, identificação do contexto, adoção das medidas previstas e registro completo.

Nada disso exige uma sentença instantânea. Exige procedimento.

Essa distinção deveria ser elementar. Acionar o protocolo não significa declarar alguém culpado. Significa reconhecer que houve uma comunicação séria o bastante para não ser varrida para baixo do tapete — ou, neste caso, para fora da súmula.

Ferraresi fez o X. O protocolo antirracista sumiu no caminho até a súmula

O futebol brasileiro adora inaugurar extintor e depois esconder a alavanca quando aparece fumaça. Há campanhas, faixas, vídeos, slogans, braçadeiras e discursos. Tudo muito bonito. Mas o teste real começa quando um atleta levanta os braços em X e obriga o sistema a sair da pose.

Nesse teste, a arbitragem falhou.

Protocolo antirracista que não reage ao sinal do jogador é cenografia institucional.

A cobrança não precisa descambar para caça às bruxas. Ao contrário: a melhor forma de proteger todos os envolvidos é documentar o que ocorreu. O que Ferraresi relatou? De onde teria partido a manifestação? O árbitro entendeu o gesto? Por que não houve interrupção visível? Que orientação foi dada ao jogador? Por qual motivo nada apareceu na súmula?

São perguntas objetivas. E nenhuma delas é respondida com a velha especialidade das entidades esportivas: a nota oficial que diz muito sobre “compromisso” e absolutamente nada sobre o caso.

A súmula não pode ser uma borracha

Há erros de arbitragem que pertencem ao jogo. Um lateral invertido, uma falta discutível, um cartão exagerado. O torcedor reclama, o comentarista desenha linhas na tela e, dois dias depois, surge outra rodada para renovar o estoque de indignação.

Isto é diferente.

A omissão de um acionamento antirracista não altera apenas a leitura de um lance. Ela pode impedir que o próprio episódio seja investigado. A súmula sem o relato corta a trilha documental antes mesmo de a apuração começar.

Ferraresi fez o X. O protocolo antirracista sumiu no caminho até a súmula

O árbitro não precisava concluir, ainda no campo, que houve racismo. Precisava registrar que Ferraresi sinalizou, explicar o que ouviu do atleta e descrever quais providências tomou — ou por que não tomou. Fato, contexto e decisão. É para isso que existe o documento.

A súmula não absolve ninguém quando omite o caso; apenas abandona a apuração.

Também seria um erro reduzir tudo ao comportamento individual do juiz. Ele deve explicações, sem dúvida, mas uma política séria não pode depender da memória, da sensibilidade ou da coragem de uma única pessoa em meio ao calor da partida. Se o protocolo permite que um X seja ignorado no gramado e apagado do relatório, então o rombo é institucional.

Quem fiscaliza o cumprimento? Existe revisão das imagens quando o gesto é identificado? Há obrigação de retificação da súmula? A equipe de arbitragem recebe treinamento prático ou apenas mais um PDF para a coleção? O jogador é ouvido posteriormente? O clube é procurado?

Sem respostas, “tolerância zero” vira apenas uma expressão simpática. Zero mesmo acaba sendo o número de providências.

O resultado importa. Mas não mais do que isso

Para o Botafogo, a derrota por 3 a 2 aumentou a turbulência de uma sequência que já vinha marcada por extremos. O time havia sido goleado por 6 a 1 pelo Cienciano na Sul-Americana, reagiu vencendo o adversário peruano por 1 a 0, perdeu por 1 a 0 para o Vitória e também empatou por 1 a 1 com o Fluminense.

Há futebol a discutir: fragilidade defensiva, oscilação, reação insuficiente, pressão por resultado. Só que transformar o episódio de Ferraresi em nota de rodapé porque a bola entrou cinco vezes seria inverter completamente a hierarquia das coisas.

O placar terá consequências na tabela. O sumiço do protocolo pode ter consequências muito maiores.

Agora, a obrigação das autoridades esportivas é reconstruir o caminho apagado. Ouvir Ferraresi, a equipe de arbitragem e os demais envolvidos; recuperar imagens e áudios disponíveis; esclarecer por que o procedimento não foi acionado de maneira perceptível; determinar a inclusão formal do episódio nos registros; e responsabilizar quem deixou de cumprir suas funções, caso a falha seja confirmada.

Sem acusação improvisada. Sem tribunal de rede social. Sem silêncio burocrático.

Combater o racismo começa por acreditar que um alerta merece resposta, não desaparecimento.

Ferraresi fez exatamente o que lhe disseram para fazer. Cruzou os braços e acionou o sinal. Se o futebol oferece ao atleta um botão de emergência, não pode descobrir, no momento do aperto, que ele estava ligado apenas à apresentação de PowerPoint da campanha.

O X estava no gramado. Quem precisa se explicar é quem o fez sumir.