No Botafogo, o novo investidor chega quando a maquiagem já derreteu

Após o 6 a 1 para o Cienciano, Gabriel de Alba encontrará uma SAF em ruínas. Manter Franclim por aparência seria repetir o erro logo na estreia.

17 de agosto de 2026

No Botafogo, o novo investidor chega quando a maquiagem já derreteu

A maquiagem acabou no sexto gol.

Até ali, ainda era possível procurar desculpas no calendário, na adaptação, no desgaste, no azar ou em alguma dessas palavras que dirigentes usam quando a bola começa a denunciar o PowerPoint. O 6 a 1 sofrido para o Cienciano, pela Sul-Americana, arrancou qualquer disfarce. Não foi uma derrota ruim. Foi uma confissão pública.

Gabriel de Alba não chegará ao Botafogo para administrar um projeto esportivo minimamente saudável. Encontrará uma SAF em ruínas, um time sem resposta e uma estrutura que parece ter perdido a capacidade de reconhecer a própria gravidade. A goleada no Peru não criou a crise; apenas acendeu a luz de um quarto que já estava bagunçado havia tempo.

O Cienciano não destruiu o projeto do Botafogo. Apenas retirou o pano que ainda o escondia.

Eis o ponto mais incômodo: não existe transição elegante depois de um 6 a 1. Não há cerimônia de passagem de bastão, fotografia sorridente ou discurso corporativo capaz de transformar aquilo em “processo”. Processo é outra coisa. Aquilo foi descontrole técnico, emocional e institucional.

No Botafogo, o novo investidor chega quando a maquiagem já derreteu

Franclim não pode virar peça de decoração

Franclim Carvalho pode ser trabalhador, bem-intencionado e respeitado internamente. Nada disso está em julgamento. Futebol profissional, porém, não distribui permanência por gentileza. O que precisa ser avaliado é se o treinador ainda tem autoridade, repertório e ambiente para conduzir uma reconstrução que começará sob enorme desconfiança.

A resposta, depois do que aconteceu contra o Cienciano e da reação inexistente diante do Vitória, é não.

Dois dias depois da pancada continental, o Botafogo voltou a campo pelo Brasileiro e perdeu por 1 a 0. Era o jogo da resposta, da vergonha convertida em intensidade, do carrinho até na sombra. Não houve nada disso. O time foi derrotado novamente e completou uma sequência de três partidas sem vencer.

Manter Franclim apenas para demonstrar serenidade seria confundir convicção com teimosia. Pior: seria obrigar o novo investidor a começar sua trajetória sustentando uma decisão que já nasceu vencida. A estabilidade é valiosa quando existe algo de pé. Em prédio desabando, estabilidade é só o nome elegante dado ao entulho.

Preservar Franclim por aparência seria repetir o erro antes mesmo de inaugurar a nova gestão.

Há um vício antigo no futebol brasileiro de acreditar que demitir treinador é sempre uma atitude emocional, enquanto mantê-lo seria prova automática de inteligência. Não é assim. Às vezes, a demissão é apenas o diagnóstico chegando atrasado. O erro não está em trocar por trocar; está em fingir que o comando ainda funciona quando o campo já entregou a ata da reunião.

No Botafogo, o novo investidor chega quando a maquiagem já derreteu

Franclim, hoje, está preso a um contexto que o engoliu. Mantê-lo para evitar a fama de impulsividade seria como deixar o guarda-chuva aberto dentro de casa enquanto o telhado voa. Dá uma sensação curiosa de providência, mas não resolve absolutamente nada.

Os números contam uma história curta e desagradável

Nos cinco jogos mais recentes listados, o Botafogo venceu apenas um: 1 a 0 sobre o Cruzeiro, fora de casa. Antes, havia empatado sem gols com o Vitória. Depois da vitória em Belo Horizonte, empatou por 1 a 1 com o Fluminense, levou seis do Cienciano e perdeu para o Vitória.

Foram três gols marcados e oito sofridos nesse recorte. O dado mais cruel é evidente: seis dos oito gols vieram em uma única noite. Mas isso não absolve o restante. Ao contrário. Uma goleada desse tamanho costuma nascer quando as fragilidades já circulam livremente pelo vestiário, pelo treino e pelo campo.

Contra o Fluminense, o empate em casa poderia ser tratado como tropeço administrável. O 0 a 0 anterior com o Vitória também caberia numa sequência comum de campeonato. A vitória sobre o Cruzeiro parecia oferecer um ponto de partida. Vista de agora, porém, ela se tornou uma ilha cercada de sinais ruins.

Não se trata apenas de resultado. Times em crise ainda podem perder mostrando algum pulso. O Botafogo perdeu a forma, o controle e, sobretudo, a capacidade de reagir. Quando um elenco leva seis e logo depois entra em campo sem produzir uma resposta convincente, o problema já ultrapassou a prancheta.

O placar de 6 a 1 foi esportivo; o silêncio posterior é institucional.

De Alba precisa entrar rompendo, não acomodando

Gabriel de Alba terá uma vantagem rara em situações desse tipo: ninguém poderá acusá-lo de ter criado o desastre. A conta estava sobre a mesa antes de sua chegada. Essa vantagem, contudo, desaparece no minuto em que ele decide proteger decisões herdadas apenas para não parecer agressivo.

O novo investidor precisa estabelecer imediatamente uma linha de comando. Isso significa definir quem decide o futebol, quais profissionais respondem pelo planejamento e qual perfil de treinador será capaz de reorganizar o time. Não basta trocar o homem da área técnica e deixar intacta a engrenagem que o colocou ali sem condições de sobreviver.

A saída de Franclim deve ser o começo, não o espetáculo principal.

O maior erro seria procurar um nome apenas para acalmar arquibancada e redes sociais. O Botafogo precisa de um treinador com autoridade para encarar um elenco traumatizado, cobrar responsabilidades e simplificar o jogo. Antes de qualquer revolução tática, será necessário devolver ao time noções básicas de compactação, competitividade e vergonha esportiva. Parece pouco? Depois de levar seis, o básico vira artigo de luxo.

Também será necessário resistir à tentação de vender reconstrução como passe de mágica. Gabriel de Alba não herdará uma tela em branco. Herdará contratos, escolhas ruins, ambiente pressionado e uma torcida que já ouviu promessas suficientes para montar uma coletânea. O torcedor botafoguense não exige milagre. Exige que parem de tratá-lo como plateia de apresentação empresarial.

A nova gestão só será realmente nova se tiver coragem de contrariar a velha bagunça.

O 6 a 1 eliminou a margem para soluções cosméticas. O revés diante do Vitória eliminou a desculpa de que tudo havia sido apenas uma noite absurda. Agora, cada dia dedicado a preservar aparências será mais um dia perdido na reconstrução.

Gabriel de Alba encontrará a maquiagem escorrendo, o camarim em silêncio e a arquibancada sem paciência. Sua primeira decisão não precisa ser simpática. Precisa ser correta.

E a correta é abrir espaço para outro comando antes que alguém tenha a ideia brilhante de passar mais uma camada de base sobre a rachadura.