O Athletico já briga pelo título. Falta o Brasileirão parar de fingir que não
Terceiro colocado, invicto há nove rodadas e dono de 70,8% de aproveitamento pós-Copa, o Furacão deixou de ser surpresa: virou candidato.
25 de agosto de 2026

Demorou, mas a tabela já perdeu a paciência com a narrativa. O Athletico é terceiro colocado, não perde há nove rodadas no Brasileirão e sustenta 70,8% de aproveitamento desde a retomada pós-Copa. Ainda assim, há quem o trate como visita educada na festa dos candidatos, alguém que pega um salgadinho, elogia a decoração e vai embora cedo.
Não vai.
O Furacão entrou na disputa pelo título — e não foi pela porta dos fundos.
Invencibilidade de nove rodadas não é boa fase. É candidatura com firma reconhecida.
A vitória que muda o tom da conversa
Ganhar do Botafogo por 3 a 2, fora de casa, foi mais do que acrescentar três pontos à conta. Foi o tipo de resultado que obriga o campeonato a olhar de novo. Há vitórias que mantêm um time no alto; outras alteram a maneira como ele passa a ser enxergado. Essa pertence ao segundo grupo.
O Athletico vinha de um 2 a 0 sobre o Santos, também como visitante, e do empate por 1 a 1 com o Red Bull Bragantino. Ou seja: o triunfo sobre o Botafogo não apareceu como raio em céu azul, nem como uma noite de goleiro inspirado, bola desviada e reza brava. Ele encaixa numa sequência que já tem peso próprio.
A conta é simples e nada modesta: foram 17 pontos em 24 possíveis depois da Copa. O percentual de 70,8% é aproveitamento de campeão, não de coadjuvante simpático. Se um dos clubes de maior exposição nacional apresentasse esses números, já haveria debate diário sobre favoritismo, mapa astral do treinador e até reportagem com o cozinheiro do CT.
Como é o Athletico, ainda se ouve o velho “vamos ver até onde vai”. Ora, já foi até o terceiro lugar.

O Athletico não está pedindo licença. Está cobrando o atraso de quem ainda não o colocou na conversa.
O trabalho de Odair tem método — e casca
O mérito de Odair Hellmann está justamente no que não rende vídeo de dez segundos: repetição. O Athletico se tornou um time capaz de pontuar em ambientes diferentes, sobreviver aos momentos ruins e não transformar cada susto numa crise existencial. Em pontos corridos, isso vale ouro.
Nem sempre será brilhante. Nem precisa. Campeonato Brasileiro não é concurso de alegoria; ninguém recebe ponto extra porque o gol teve 25 passes e trilha sonora bonita. O campeão costuma ser aquele que aprende a ganhar quando pode e, principalmente, evita perder quando o jogo resolve ficar feio.
O empate em 1 a 1 com o Bragantino ajuda a contar essa história. Isoladamente, não empolga ninguém. Dentro da série invicta, porém, representa a manutenção de uma marcha que não depende de fogos de artifício a cada rodada.
Odair também merece crédito por impedir que o desastre na Copa do Brasil contaminasse o Brasileirão. Depois de vencer o Vitória por 2 a 0, o Furacão levou 4 a 0 no segundo confronto e foi eliminado. Foi uma pancada daquelas que deixam o torcedor encarando a parede e o comentarista abrindo a gaveta dos adjetivos cruéis.
Só que o Athletico não levou o vexame para passear pelo campeonato. Separou as competições, recolheu os cacos e seguiu pontuando. Essa capacidade de resposta é um sinal mais importante do que parece. Time que briga em cima não é o que jamais apanha; é o que não passa um mês no chão explicando a queda.
A goleada sofrida mostrou uma fraqueza. A reação imediata revelou a força.

Ainda não é favorito. Já é candidato.
Há uma diferença importante entre as duas coisas. Favoritismo envolve elenco, profundidade, histórico, margem para lesões e capacidade de suportar a pressão das rodadas finais. Candidatura é outra conversa: nasce da tabela, do desempenho e da constância. Nesses três critérios, o Athletico já apresentou seus documentos.
O maior erro agora seria exigir uma espécie de prova impossível, como se o Furacão precisasse abrir vantagem, vencer todos os concorrentes fora de casa e ainda equilibrar uma bola no nariz para ser levado a sério. Os chamados favoritos também tropeçam, jogam mal e arrancam empates que parecem escritos com a mão esquerda. A diferença é que seus tropeços costumam ser tratados como acidente; os do Athletico, como revelação definitiva de uma suposta fraude.
Essa régua é preguiçosa.
Também existe uma memória automática do futebol brasileiro: quando o Athletico aparece no pelotão da frente, muita gente corre para classificá-lo como “time organizado”. É um elogio que, dependendo do tom, vira teto. Como se organização fosse o máximo permitido, e ambição estivesse reservada aos escudos de sempre.
Pois organização ganha campeonato. Regularidade ganha campeonato. Saber atravessar uma eliminação traumática sem desmontar a temporada também ganha campeonato.
Campeonato de pontos corridos não premia grife. Premia repetição.
Naturalmente, a cobrança muda a partir de agora. Terceiro colocado não pode mais se comportar como quem joga com dinheiro da casa. O Athletico precisa assumir o próprio lugar, inclusive nos jogos em que terá a obrigação de propor, pressionar e vencer. A caça aos líderes não será feita apenas nas grandes noites fora de casa; ela passa por não desperdiçar rodadas aparentemente comuns, aquelas de estádio impaciente e adversário fechado.
É aí que candidaturas amadurecem ou viram lembrança agradável.
Mas a discussão anterior já acabou. Não se trata mais de perguntar se o Athletico pode entrar na briga. Ele entrou. Está na mesa, mexeu nas fichas e acaba de ganhar uma mão importante contra o Botafogo.
Quem quiser continuar chamando de azarão simpático, fique à vontade. Só convém olhar a tabela antes — para não descobrir tarde demais que o “convidado” já está escolhendo o lugar da taça.
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