O Athletico não visita o G-3. Está construindo uma campanha de Libertadores

Após engolir a queda na Copa do Brasil, o Furacão venceu o Santos na Vila, chegou aos 40 pontos e mostrou que consistência não se compra no grito.

10 de agosto de 2026

O Athletico não visita o G-3. Está construindo uma campanha de Libertadores

A resposta veio em três dias. E não foi dada em entrevista coletiva, postagem motivacional ou discurso de vestiário. Foi dada na Vila Belmiro, onde o Athletico venceu o Santos por 2 a 0, chegou aos 40 pontos e tratou uma crise em potencial com a velha receita que nunca sai de moda: organização, concentração e bola na rede.

Na quinta-feira, o Furacão havia levado 4 a 0 do Vitória e sido eliminado da Copa do Brasil. O resultado foi especialmente doloroso porque a equipe carregava uma vantagem de 2 a 0 construída no primeiro confronto. Era o tipo de pancada capaz de deixar qualquer elenco discutindo com o próprio espelho.

No domingo, porém, não havia ressaca. Havia um time.

Time que quer Libertadores não passa a semana lamentando o tombo. Levanta antes que alguém perceba que caiu.

A Vila separa os organizados dos empolgados

Ganhar do Santos na Vila nunca é um compromisso burocrático. Mesmo quando o adversário oscila, o estádio encurta o campo, estica o relógio e transforma qualquer bola levantada na área em princípio de incêndio. O Athletico soube atravessar esse ambiente sem perder a cabeça.

O 2 a 0 teve valor porque revelou maturidade. O Furacão não entrou tentando apagar a eliminação com dez minutos de correria descontrolada. Também não ficou encolhido, como quem pede desculpas por ocupar uma posição alta na tabela. Escolheu os momentos, protegeu os espaços e atacou quando o jogo abriu as portas.

Foi uma atuação de quem entendeu que a melhor resposta ao caos não é produzir mais caos.

A defesa resistiu, o time não se partiu e as transições encontraram um Santos exposto. Não houve necessidade de transformar cada posse em espetáculo. Campeonato Brasileiro não oferece troféu para a equipe mais cinematográfica de agosto. Oferece pontos — e o Athletico voltou para Curitiba com três deles.

O Athletico não visita o G-3. Está construindo uma campanha de Libertadores

Há algo de simbólico na sequência recente da Série A. Antes de vencer na Vila, o Furacão havia batido o Internacional por 2 a 0 e empatado por 0 a 0 com o Corinthians fora de casa. São sete pontos em nove possíveis, quatro gols marcados e nenhum sofrido nesses três jogos.

Isso não é fogo de palha. É padrão competitivo.

Os 40 pontos mudam a conversa

Chegar aos 40 pontos no G-3 não garante nada, claro. A tabela ainda tem quilômetros pela frente e o Brasileirão é especialista em vender tranquilidade de manhã e cobrar juros à noite. Mas já passou da hora de aposentar o rótulo de “surpresa simpática”.

Surpresa é aparecer por duas ou três rodadas. Permanecer exige estrutura.

O Athletico está construindo uma campanha de Libertadores porque pontua de maneiras diferentes. Ganha em casa, arranca empate longe de Curitiba, suporta pressão e não depende de um único roteiro para sobreviver. Contra o Inter, impôs-se. Diante do Corinthians, aceitou um jogo mais amarrado e saiu com um ponto. Na Vila, absorveu o ambiente e foi cirúrgico.

A tabela pode até chamar de terceiro lugar. O campo já chama de candidato.

Essa consistência vale mais do que qualquer coleção de frases fortes. Há clubes com orçamento maior, elenco mais badalado e folha salarial capaz de causar tontura no contador. Mesmo assim, vivem estacionados no acostamento, mexendo no capô de um carro de luxo que não pega. O Furacão vem de trator: faz barulho, levanta poeira e segue abrindo estrada.

O Athletico não visita o G-3. Está construindo uma campanha de Libertadores

Kevin Viveros representa bem essa campanha. Não apenas pela presença ofensiva, mas pela maneira como oferece agressividade a um time que não desperdiça energia. O Athletico não ataca por ansiedade. Ataca com objetivo. Quando recupera a bola, há gente correndo para ferir, não para preencher mapa de calor bonito em rede social.

Eis uma diferença importante. Muitos times confundem posse com domínio, assim como aquele sujeito do churrasco confunde avental com talento para assar carne. O Furacão não precisa ficar com a bola por vaidade. Precisa saber o que fazer com ela.

A eliminação continua feia — e deve continuar

A vitória sobre o Santos não apaga o desastre diante do Vitória. Nem deveria. Perder por 4 a 0 depois de abrir 2 a 0 no confronto foi inaceitável, um colapso que precisa ser estudado sem maquiagem. Jogar a atuação para baixo do tapete seria pedir que o problema voltasse usando chuteira nova.

Mas existe uma diferença enorme entre ignorar uma derrota e não ser devorado por ela. O Athletico fez a segunda coisa. Engoliu a queda, mesmo atravessada, e voltou ao campeonato sem carregar o caixão da Copa do Brasil para dentro da Vila.

Esse mérito pertence ao elenco e à comissão técnica. Recuperação emocional também é trabalho. Quando um time sofre quatro gols numa eliminação e, três dias depois, apresenta uma atuação segura fora de casa, não se trata apenas de “vontade”. Houve capacidade de reorganizar o ambiente, corrigir o foco e impedir que uma noite ruim contaminasse a temporada.

A eliminação foi um vexame. Transformá-la em álibi teria sido um vexame ainda maior.

Agora, o maior erro seria reduzir o Athletico a um intruso que cedo ou tarde pedirá licença para sair do G-3. Não há licença sendo pedida. Há uma vaga sendo disputada com autoridade.

O Furacão talvez não tenha o elenco mais caro, o banco mais estrelado ou o nome mais sedutor da competição. Tem algo que costuma aparecer menos nas manchetes e mais na classificação: confiabilidade. Aos 40 pontos, já não visita o andar de cima para tirar fotografia.

Está levando os móveis.