O “filho adotado” de Bap cresceu apesar dele e pôs o Flamengo na semifinal

Com uma a menos, o Flamengo segurou o 2 a 2 com a Ferroviária e chegou à semifinal. A façanha é das atletas; o constrangimento, da diretoria.

5 de setembro de 2026

O “filho adotado” de Bap cresceu apesar dele e pôs o Flamengo na semifinal

O apito final encontrou dez jogadoras rubro-negras espremendo o último resto de energia para proteger um 2 a 2 que valia muito mais do que uma classificação. Diante da Ferroviária, uma das instituições mais respeitadas do futebol feminino brasileiro, o Flamengo jogou com uma a menos, resistiu à pressão e avançou à semifinal.

Não foi um favor da camisa. Não foi milagre administrativo. E, definitivamente, não foi obra de dirigente.

A vaga pertence às atletas. O constrangimento pertence a quem ainda trata o futebol feminino como parente distante.

A campanha rubro-negra vinha deixando pistas de que havia algo mais forte em construção. Depois da derrota por 1 a 0 para o Corinthians e do empate por 1 a 1 com o América-MG, o time reagiu: venceu o Santos por 3 a 2, atropelou o Atlético-MG por 4 a 1 e bateu a própria Ferroviária por 1 a 0. Não era uma arrancada decorativa. Era futebol ganhando corpo, confiança e casca.

Então chegou o jogo que costuma separar equipes organizadas de equipes realmente competitivas. Com igualdade no placar e inferioridade numérica, o Flamengo precisou sobreviver. Não havia espaço para vaidade, saída enfeitada ou heroína tentando resolver tudo sozinha. Era fechar corredor, ganhar segunda bola, esfriar o jogo quando possível e sofrer junto quando necessário.

A Ferroviária não é adversária que se vence no grito. O clube de Araraquara carrega tradição, trabalho contínuo e uma compreensão do futebol feminino que ainda falta a muito marmanjo engravatado. Também atravessava boa sequência, com vitória sobre o Internacional, empate com Palmeiras e Fluminense e triunfo diante do Bahia. Segurar esse time com dez jogadoras não é detalhe de súmula. É demonstração de personalidade.

Quando faltou uma jogadora, sobraram dez motivos para respeitar o Flamengo.

E aqui a história sai das quatro linhas e entra naquela sala refrigerada onde o futebol costuma perder contato com a realidade.

Luiz Eduardo Baptista, o Bap, escolheu a expressão “filho adotado” ao falar do futebol feminino. A frase não foi apenas infeliz. Ela revelou uma visão. Filho adotado é filho — ponto —, mas a metáfora usada pelo presidente transmitiu justamente a ideia oposta: a de um projeto tolerado, recebido por obrigação, quase um hóspede que deve agradecer pelo prato na mesa.

O futebol feminino do Flamengo não precisa de caridade verbal. Precisa de orçamento, estrutura, planejamento e respeito compatíveis com o tamanho do clube.

O “filho adotado” de Bap cresceu apesar dele e pôs o Flamengo na semifinal

Há uma ironia deliciosa — e também incômoda — nessa classificação. O tal “filho adotado” cresceu, encarou uma potência da modalidade, jogou em desvantagem e chegou à semifinal. Enquanto isso, a diretoria ficou parecendo aquele sujeito que não ajudou a fazer o trabalho em grupo, mas aparece cedo no dia da apresentação para escolher onde vai ficar na foto.

Não, presidente: essa vaga não serve como absolvição.

Ela serve como cobrança.

O Flamengo chegou à semifinal não porque sua estrutura fez tudo pelas jogadoras, mas porque as jogadoras se recusaram a ser menores do que o Flamengo.

Essa diferença precisa ficar registrada antes que a classificação vire postagem institucional, vídeo com trilha épica e discurso sobre “compromisso com a modalidade”. O roteiro é conhecido. A equipe supera as limitações, a torcida se mobiliza, o resultado aparece — e, de repente, surge uma fila de cartolas querendo assinar a certidão de paternidade.

Seria cômico se não fosse tão recorrente.

Dentro de campo, o 2 a 2 teve o peso de uma vitória. Não pela matemática, que é objetiva, mas pelas circunstâncias. Jogar com dez muda tudo: distâncias, cobertura, capacidade de pressionar, fôlego e tomada de decisão. Cada avanço adversário passa a parecer mais longo; cada bola afastada compra alguns segundos preciosos. É um barco furado em que todo mundo rema e ainda usa a chuteira para tapar o buraco.

O “filho adotado” de Bap cresceu apesar dele e pôs o Flamengo na semifinal

Foi aí que o Flamengo mostrou sua melhor versão. Não necessariamente a mais bonita, mas a mais adulta. Time que pretende disputar título também precisa saber viver sem a bola, suportar desconforto e entender que, em mata-mata, elegância às vezes é dar um chutão para a lateral sem pedir desculpas ao departamento de estética.

O mérito passa pelas atletas e pela comissão técnica, que transformaram uma situação potencialmente desastrosa em prova de maturidade. A equipe não se desmanchou depois de ficar com uma a menos. Reorganizou-se. Sofreu, claro — quem promete tranquilidade contra a Ferroviária provavelmente também vende guarda-chuva furado —, mas não perdeu a cabeça nem a vaga.

Agora, a semifinal aumenta a responsabilidade de todos. Das jogadoras, porque a régua esportiva subiu. Da comissão, porque cada ajuste vale uma temporada. E, principalmente, da direção, porque já não existe desculpa para tratar a modalidade como apêndice incômodo do orçamento.

Resultado não pode ser condição para respeito. Um clube do tamanho do Flamengo deve investir no futebol feminino antes da semifinal, não posar ao lado dele depois.

Camisa pesada ajuda; descaso institucional pesa muito mais.

Bap pode escolher aproveitar o recado ou continuar prisioneiro da própria frase. O caminho correto é bastante simples: parar de falar como quem acolheu um projeto alheio e começar a agir como presidente de um clube que também pertence a essas mulheres.

Porque, depois do que fizeram contra a Ferroviária, uma coisa ficou impossível de esconder: se existe alguém se comportando como estranho nessa família, não são as jogadoras.