O Vasco não pode vender a SAF com o comprador já dentro do caixa
O dinheiro de Lamacchia alivia o Vasco, mas empréstimos de R$ 270 milhões podem transformar a disputa pela SAF em uma concorrência apenas de fachada.
23 de agosto de 2026

A goleada por 4 a 1 sobre o Olimpia, fora de casa, produziu aquela rara sensação de sossego que o vascaíno aprendeu a receber com desconfiança. Em campo, o time resolveu. Nos gabinetes, porém, há uma partida muito mais perigosa — e nela o placar pode estar sendo aberto antes mesmo de os adversários entrarem em campo.
Os empréstimos ligados a José Roberto Lamacchia, que podem chegar a R$ 270 milhões, representam um alívio evidente para o Vasco. Dinheiro paga salário, reduz incêndio, dá fôlego ao futebol e impede que a reconstrução pós-777 seja feita apenas com discursos, coletivas e a boa vontade de São Januário.
Mas dinheiro nunca entra sozinho. Traz contrato, influência e poder de negociação.
Quem empresta R$ 270 milhões não chega à disputa pela SAF como um desconhecido. Chega com a chave do cofre no bolso.
Esse é o ponto que a direção associativa precisa enfrentar sem malabarismo retórico. Lamacchia pode ser um parceiro financeiro legítimo, pode ter capacidade econômica e pode até apresentar, no fim do processo, a melhor proposta para comprar a SAF. Nada disso elimina o problema central: um potencial comprador que já se tornou credor do clube larga em posição muito diferente da dos demais interessados.
Não é preciso enxergar conspiração em cada boleto. Basta entender como funciona uma negociação desse tamanho. O credor conhece o fluxo de caixa, acompanha as urgências, compreende onde a corda aperta e sabe até onde o clube consegue resistir. Um concorrente externo recebe documentos organizados numa sala de dados. Quem já está financiando a operação convive com a necessidade real, aquela que não cabe no PowerPoint.
É como disputar um imóvel com alguém que já pagou a reforma, conhece o síndico e guarda uma cópia da chave. No papel, todos podem fazer proposta. Na prática, um deles já sabe até onde a parede está rachada.

O Vasco precisava de uma ponte depois do desastre da 777. O erro seria transformar a ponte em escritura.
O dinheiro de Lamacchia não deve ser tratado como pecado original. Recusar recursos apenas para preservar uma aparência de pureza institucional também seria irresponsável. Clube de futebol não paga suas contas com indignação de rede social — se pagasse, o Vasco teria o maior orçamento da América do Sul. A questão não é aceitar ou não aceitar o empréstimo. A questão é impedir que a dependência financeira determine o vencedor da venda.
Empréstimo pode salvar o presente sem ganhar, por gravidade, o direito de comprar o futuro.
O risco fica ainda mais claro quando se olha para o futebol. O Vasco vem de uma sequência que resume bem sua instabilidade: ganhou do Fluminense por 3 a 1 na Copa do Brasil, empatou sem gols com Bahia e Olimpia, levou 3 a 0 do Santos em casa e depois atropelou o mesmo Olimpia no Paraguai.
Há competitividade, há momentos de bom futebol, mas não há margem para administrar a SAF como se o clube estivesse sentado sobre reservas inesgotáveis. Cada derrota aumenta a pressão. Cada janela de transferências exige aporte. Cada obrigação vencendo fortalece quem consegue colocar dinheiro imediatamente. A urgência esportiva, nesse cenário, pode virar uma ferramenta de pressão societária.
E urgência é péssima conselheira. Foi justamente a pressa, acompanhada de promessas grandiosas e fiscalização insuficiente, que ajudou a empurrar o Vasco para a aventura com a 777. Trocar o escudo do investidor sem mudar o método seria reincidência, não reconstrução.
Ninguém deveria esquecer a lição principal daquele fracasso: cheque grande não substitui governança. O Vasco vendeu controle acreditando que o tamanho da promessa bastava. Quando percebeu que aporte também pode virar chantagem financeira, a relação já havia apodrecido.
Agora, a obrigação é montar uma concorrência real. Isso exige que os termos dos empréstimos sejam expostos com clareza aos órgãos responsáveis pela decisão; que se saiba como a dívida será tratada numa eventual venda; que todos os interessados tenham acesso às mesmas informações relevantes; e que não existam atalhos contratuais capazes de dar preferência, exclusividade informal ou poder de veto ao financiador.
Se houver qualquer mecanismo de conversão, preferência ou compensação, ele precisa ser conhecido antes da abertura das propostas — não descoberto quando os envelopes já estiverem sobre a mesa. E, caso Lamacchia participe formalmente da compra, a avaliação da SAF terá de ser independente e especialmente rigorosa. Não por hostilidade ao empresário, mas por respeito ao patrimônio do clube.

Porque R$ 270 milhões não são apenas R$ 270 milhões. Dependendo das condições pactuadas, esse valor pode funcionar como vantagem competitiva, barreira de entrada e instrumento para afastar concorrentes. Quem pensa em comprar o Vasco fará uma conta simples: quanto custa a SAF e quanto custa resolver a dívida com quem já está dentro dela? Se a resposta tornar todas as propostas externas inviáveis, não teremos leilão. Teremos encenação com cafezinho e assinatura no final.
Concorrência com vencedor previamente fortalecido é teatro; e o Vasco já financiou espetáculo ruim demais.
Também seria injusto transformar Lamacchia automaticamente em vilão. O empresário não tem obrigação de agir como instituição filantrópica, nem de esconder o eventual interesse num ativo que ajudou a sustentar. Cabe ao Vasco estabelecer limites. A responsabilidade é de quem governa o clube, redige os contratos, conduz o processo e tem o dever de proteger a associação.
Esse é o verdadeiro teste da atual gestão: receber o socorro sem entregar o volante ao guincho.
O clube precisa de capital, estabilidade e um dono para a SAF que tenha capacidade de investimento, compromisso esportivo e disposição para suportar anos difíceis. Se a melhor proposta for a de Lamacchia, que vença. Mas que vença depois de uma disputa limpa, com preço justo e regras conhecidas — não porque os demais candidatos encontraram a porta bloqueada por uma pilha de notas promissórias.
A goleada no Paraguai lembrou que ainda existe um time capaz de dar prazer ao torcedor. A queda da 777 lembrou que nenhum bom resultado autoriza o Vasco a baixar a guarda fora de campo.
O próximo dono da SAF deve entrar pela porta da frente, não sair de dentro do caixa.
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