Vasco contratou Colidio e só depois procurou a chave da Sul-Americana
Colidio chegou para reforçar o ataque, mas pode nem jogar a Sul-Americana. Se a inscrição depende da clemência da Conmebol, o planejamento já falhou.
14 de agosto de 2026

O Vasco fez a parte mais cara antes de resolver a mais básica. Contratou Facundo Colidio, reforçou o ataque, apresentou uma solução esportiva — e só então percebeu que a porta da Sul-Americana talvez estivesse trancada.
Agora, a possibilidade de utilizar o atacante depende de uma resposta favorável da Conmebol. Pode dar certo? Pode. Mas planejamento não é preencher formulário de apelação e torcer para o funcionário da confederação acordar de bom humor.
Quando a escalação depende de clemência, o erro aconteceu muito antes do apito inicial.
Colidio não é o problema. Pelo contrário: sua chegada faz sentido para um time que atravessou três dos últimos cinco jogos sem marcar. O Vasco ficou no 0 a 0 com Fluminense, Bahia e Olimpia. No meio disso, venceu o Independiente Medellín por 1 a 0 e bateu o próprio Flu por 3 a 1 na Copa do Brasil. Há competitividade, há organização e há momentos de bom futebol. Falta, porém, transformar presença ofensiva em gol com mais frequência.
A contratação, portanto, responde a uma necessidade evidente. O absurdo está na ordem dos acontecimentos. Se a Sul-Americana era prioridade — e deve ser —, a condição de inscrição do jogador precisava estar esclarecida antes da assinatura, da foto com a camisa e do discurso sobre reforço imediato.
Não depois.
O 0 a 0 que aumenta a irritação
O empate sem gols com o Olimpia deixou a discussão ainda mais incômoda. O Vasco teve diante de si exatamente o tipo de jogo em que uma nova opção de ataque poderia mudar o roteiro: confronto apertado, poucos espaços e necessidade de encontrar uma jogada diferente quando o plano inicial emperra.
Não significa que Colidio certamente faria o gol. Futebol não oferece garantia nem quando o centroavante entra com a trave no bolso. Mas reforço importante serve justamente para ampliar as alternativas do treinador. Se o jogador está contratado e fisicamente disponível, mas assiste à competição por uma falha administrativa, não é azar. É desperdício.

O Vasco não pode tratar a inscrição como um detalhe burocrático menor. Em torneio continental, regulamento é parte da estratégia. Prazo, documentação e elegibilidade valem tanto quanto treino de bola parada. Clube que ignora isso corre o risco de chegar ao estádio com o atacante pronto e descobrir que esqueceu o nome dele na lista — o equivalente futebolístico a comprar passagem para Assunção e deixar o passaporte em São Januário.
Regulamento também ganha jogo; a diferença é que ele não aceita carrinho atrasado como desculpa.
O mais irritante é que o bom momento competitivo aumentava a obrigação de agir com precisão. Antes do empate com o Olimpia, o Vasco havia vencido o Independiente Medellín pela Sul-Americana.
Também eliminou qualquer desconfiança sobre sua capacidade de competir ao vencer o Fluminense por 3 a 1, depois de um 0 a 0 no primeiro encontro listado da Copa do Brasil. O time mostrou maturidade para sobreviver a partidas amarradas e força para atacar quando o jogo se abriu.
É exatamente nesse cenário que Colidio poderia ser mais útil. Não como salvador da pátria — esse cargo costuma ter contrato curto e cobrança eterna —, mas como mais uma peça para evitar que o Vasco fique refém de uma única dinâmica ofensiva.
A contratação pode ser boa e o processo, ruim
Existe um vício no debate brasileiro: quando o nome contratado agrada, qualquer crítica ao processo vira suposta implicância. Não deveria ser assim. É perfeitamente possível elogiar a chegada de Colidio e reprovar a condução da inscrição. Uma coisa não anula a outra.
O departamento de futebol merece crédito por buscar um atacante capaz de elevar a concorrência. Mas merece cobrança por não ter assegurado, de antemão, que esse reforço pudesse disputar uma das competições mais importantes do calendário vascaíno.
A diretoria pode alegar urgência de mercado, dificuldade de negociação ou interpretação diferente do regulamento. Nada disso muda o ponto central. Se era impossível garantir a inscrição, o risco precisava ser assumido de forma consciente e explicado com transparência. Se a situação pegou o clube de surpresa, é pior ainda.
Contratar bem não absolve planejar mal.
A torcida não quer saber apenas se Colidio vestirá a camisa. Quer saber quando, onde e em quais competições. E tem razão. Reforço de janela não é peça decorativa para fotografia oficial. Muito menos em um mata-mata continental no qual um lance pode separar a classificação da velha noite de lamentações.

Agora, o Vasco espera. Espera a interpretação, a autorização, a exceção ou qualquer nome elegante que se queira dar à boa vontade da Conmebol. Se a resposta for positiva, Colidio poderá entrar no torneio e parte do constrangimento será esquecida assim que a bola balançar a rede. Futebol tem memória seletiva: um gol importante transforma papelada mal resolvida em nota de rodapé.
Mas o eventual final feliz não deve reescrever o começo da história.
A Conmebol não pode virar departamento do Vasco
O maior erro seria tratar uma liberação como prova de competência. Não será. Será apenas a correção externa de um problema que o próprio clube deveria ter evitado. A diretoria precisa rever o fluxo entre mercado, jurídico e comissão técnica para que a próxima contratação chegue com chuteira, contrato e condição de jogo — o trio básico, embora aparentemente revolucionário.
Não cabe ao treinador pagar essa conta. Também não cabe ao jogador, que foi contratado para jogar, não para interpretar regulamento. A responsabilidade é de quem conduziu a operação sem fechar todas as pontas.
A Sul-Americana pode até abrir a porta para Colidio; o Vasco não tem o direito de perder a chave outra vez.
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