Congelar o futebol é negligência: o São Paulo precisa de um pacto já

Com Sabino fora, Domingos Duarte em recuperação e só três zagueiros projetados para janeiro, o São Paulo precisa selar um pacto e decidir Dorival.

Publicado em

Harry Massis fecha um freezer do departamento de futebol enquanto dois candidatos seguram um pacto de transição.

Vila Belmiro, 4 de novembro, 21h30. O Majestoso está marcado, mas Sabino já estava fora pelo terceiro cartão amarelo. Na mesma data, o zagueiro será submetido a uma cirurgia para reparo da cartilagem do joelho direito. A coincidência é quase didática: enquanto o São Paulo olha para um clássico, o problema verdadeiro está apontando para janeiro. A suspensão vale uma partida. A incerteza médica pode atravessar a virada do ano — e o clube sequer divulgou prazo de recuperação. Sabino disputou 36 jogos em 2026 e chegou a 99 partidas com a camisa tricolor. Não é uma peça escondida no fundo do armário. É um jogador de uso constante que, de repente, deixa uma interrogação enorme justamente no setor em que o elenco já está no limite.

Eleição escolhe presidente. Não pode escolher o tamanho do buraco na zaga.

Harry Massis decidiu não conduzir movimentos relevantes de mercado antes da eleição presidencial. É uma escolha confortável do ponto de vista político e irresponsável do ponto de vista esportivo. O mandato termina em 31 de dezembro, é verdade. O estatuto determina que presidente e vice sejam eleitos na primeira quinzena de dezembro, também é verdade. Mas a temporada nacional de 2027 começa em 6 de janeiro. Entre uma data e outra não existe uma pré-temporada; existe um espirro. Esperar a nova administração assumir formalmente para só então discutir treinador, mapear zagueiros, abrir negociação, enfrentar concorrência e assinar contratos seria administrar o São Paulo como quem deixa para comprar o peru às oito da noite do dia 24 e ainda reclama que sobrou apenas peito de frango congelado.

O diagnóstico não exige uma junta de notáveis. Domingos Duarte rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho direito contra o Internacional, em 19 de setembro, e passou pela cirurgia de reconstrução ligamentar quatro dias depois. A projeção interna é de retorno apenas perto da metade de 2027. Sabino terá o joelho operado sem prazo público para voltar. No cenário atual, os únicos zagueiros de origem com contrato e condição física projetada para o começo da próxima temporada são Arboleda, Osorio e Isac. Três. E dois deles, Osorio e Isac, ainda atravessam o processo natural de consolidação no elenco profissional. Isso não é planejamento enxuto. É uma aposta de cassino feita com o dinheiro do próprio almoço.

Três zagueiros sustentam uma muralha rachada, com reforços esperando atrás de um portão cuja chave está em uma urna.

Rafael Tolói poderia aliviar a conta? Poderia, mas hoje ele também pertence ao campo das pendências. Seu contrato termina em 31 de dezembro e prevê renovação automática até o fim de 2027 mediante metas de participação. Segundo o UOL, o defensor não conseguirá atingir a meta; uma permanência dependerá de nova negociação com a próxima gestão. Portanto, Tolói não pode ser tratado como presença garantida em janeiro. É possibilidade, não patrimônio contabilizado. Alan Franco está emprestado ao Tigres. Dória rescindiu em maio. Ferraresi foi negociado com o Botafogo durante a temporada. O São Paulo foi esvaziando a prateleira e agora contempla três peças restantes, uma delas Arboleda e as outras duas ainda buscando espaço definitivo. Não há matemática criativa capaz de transformar isso em segurança.

A sequência recente também recomenda menos contemplação e mais ação. O time perdeu por 2 a 0 para o Cruzeiro, venceu o Vitória por 2 a 1 e o Vasco por 1 a 0, empatou em 1 a 1 com o Mirassol e saiu derrotado por 3 a 2 diante do Bahia. Resultados oscilam, como sempre oscilam, mas elenco curto não é oscilação: é estrutura. E estrutura não se corrige no grito quando a bola já está rolando.

Por isso, situação e oposição precisam firmar imediatamente um pacto de transição. Vinícius de Medeiros, candidato da situação, e Marcelo Portugal Gouvêa, nome da oposição, não têm de concordar sobre o passado do clube, muito menos posar para fotografia com sorriso de reunião de condomínio. Precisam concordar sobre o mínimo: o São Paulo não pode chegar a 6 de janeiro com uma zaga montada na base da fé, do esparadrapo e de uma planilha marcada como “ver depois”. O pacto deve autorizar o departamento a trabalhar agora dentro de parâmetros aprovados pelos dois lados — teto de investimento, perfil técnico, faixa contratual e prioridades. Não se trata de Massis contratar livremente e mandar a conta para o sucessor. Trata-se de construir decisões compartilhadas, documentadas e transparentes, para que a eleição não paralise uma instituição que continua disputando jogos, pagando salários e preparando outra temporada.

O alvo mínimo deve ser a contratação de dois zagueiros. Um pronto para jogar, capaz de assumir responsabilidade desde a largada; outro que ofereça profundidade real, não apenas um nome para completar treino. Mesmo uma eventual renovação de Tolói não elimina essa necessidade. Domingos Duarte não deve voltar antes de perto da metade do ano, Sabino não tem prazo divulgado e Osorio e Isac não podem receber a obrigação de sustentar, de uma hora para outra, toda a rotação defensiva. Dar oportunidade aos jovens é saudável. Usá-los como desculpa para não contratar é outra coisa — e bem menos nobre.

Quem deixa o futebol em ponto morto também toma uma decisão: decide chegar atrasado.

O mesmo vale para Dorival Júnior. Ele assinou em 15 de maio um contrato válido apenas até 31 de dezembro, deseja permanecer e terá o futuro definido pelo presidente eleito em dezembro. Está aí uma construção institucional que parecia prudente meses atrás, mas ficou apertada demais diante do calendário da CBF. O treinador de 2027 precisa participar da montagem do elenco de 2027. Se o São Paulo entende que Dorival deve continuar — e esta coluna entende que deve —, a renovação precisa ser encaminhada com aval dos dois candidatos. Se um deles considera sua permanência inaceitável, que diga agora e assuma o custo político da posição. O que não cabe é empurrar a resposta até a posse, como se treinador chegasse, abrisse uma pasta e encontrasse dois zagueiros prontos dentro dela.

A continuidade de Rafinha no comando do departamento de futebol também será analisada pela próxima administração. Certo. Funções executivas devem ser avaliadas. Só que essa discussão não pode virar a rolha que tampa todas as outras. É possível definir o treinador sem eternizar o dirigente; é possível avançar em negociações sem oferecer cheque em branco; é possível montar uma lista consensual de reforços sem apagar as diferenças entre situação e oposição. Clube grande exige maturidade justamente quando as pessoas prefeririam lavar as mãos.

Harry Massis e dois candidatos interrompem um revezamento enquanto Dorival espera perto de pastas de contratações.

Harry Massis tem obrigação de liderar esse entendimento porque ainda é o presidente. Seu mandato não entrou em férias coletivas. Vinícius de Medeiros e Marcelo Portugal Gouvêa têm obrigação de participar porque um dos dois receberá o bastão. O pacto não favorece candidato algum; favorece o próximo São Paulo. E, caso alguém tema que um acordo desse tipo retire poder do vencedor, convém lembrar: poder sem tempo para agir é só uma cadeira bonita cercada de problemas.

Janeiro não é mês de transição. É mês de consequência.

Ou o pacto sai agora, ou a urna escala a defesa.

E urna não joga de zagueiro.

Times citados nesta matéria

Compartilhar:WhatsAppX

Receba as próximas matérias

As melhores matérias do futebol brasileiro no seu e-mail, sem spam.

Ao assinar, você concorda em receber nossos e-mails. Pode cancelar quando quiser.