Coutinho pode decidir o San-São — mas não pode ganhar vaga por decreto

Parado há mais de sete meses, Coutinho deve ser arma no segundo tempo. Após quatro vitórias, o Santos não pode trocar meritocracia por grife.

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Cuca observa uma máquina com quatro engrenagens e uma peça dourada com o nome de Coutinho.

Grife nenhuma pode atropelar quatro vitórias.

Philippe Coutinho foi relacionado pela primeira vez pelo Santos, deve começar o San-São no banco e é exatamente ali que precisa estar quando a bola rolar nesta sexta-feira, às 20h, no MorumBIS, pela partida atrasada da 21ª rodada do Campeonato Brasileiro. Não se trata de diminuir o camisa 11, muito menos de fingir que talento perdeu valor no futebol. Trata-se de respeitar o jogo, o vestiário e uma evidência que treinador nenhum deveria ignorar: antes da possível estreia de Coutinho, o Santos venceu quatro rodadas consecutivas. Bateu Corinthians, Internacional, Cruzeiro e Remo, chegou aos 38 pontos em 27 partidas e ocupa a oitava colocação. A engrenagem, enfim, parou de ranger. Desmontá-la para acomodar um sobrenome famoso seria como trocar o motor do ônibus em movimento porque embarcou um passageiro de terno. Bonito para a fotografia, péssimo para chegar ao destino. Coutinho tem 34 anos, assinou em 14 de setembro e não disputa uma partida oficial desde 14 de fevereiro, quando ainda defendia o Vasco diante do Volta Redonda pelo Campeonato Carioca. São mais de sete meses longe de um jogo valendo. Ele cumpriu programação física especial no CT Rei Pelé, trabalhou durante as folgas do elenco e completou a última semana de atividades com o grupo. Ótimo. Era o mínimo necessário para entrar na lista de 24 jogadores — não um salvo-conduto para tomar a vaga de quem sustentou a arrancada no Brasileiro.

Currículo abre portas; sequência ganha a cadeira.

Cuca acerta ao tratar Coutinho como arma para o segundo tempo. E não há nada de conservador nisso. Pelo contrário: colocar no banco um meia capaz de mudar o peso técnico da partida é ampliar o repertório. O clássico pode pedir pausa, passe entre linhas, controle emocional ou uma bola diferente quando as pernas começarem a cobrar a conta. Esse é o cenário ideal para a estreia. Coutinho não precisa suportar desde o início a intensidade de um San-São no MorumBIS; pode entrar quando o jogo estiver mais espaçado, ler o que aconteceu e atacar um adversário já desgastado. O banco, aqui, não é castigo. É estratégia — e também proteção para um jogador sem ritmo competitivo. A ansiedade externa sempre tenta transformar contratação badalada em titularidade compulsória, como se a escalação viesse anexada ao contrato. Não vem. Ou, ao menos, não deveria vir. O Santos não contratou Coutinho para organizar uma festa de apresentação permanente. Contratou para ganhar partidas.

Coutinho aparece em um canhão no banco de reservas, diante de um relógio do segundo tempo.

O banco não diminui Coutinho. Aumenta o Santos.

Há ainda um detalhe que impede qualquer clima de laboratório: o São Paulo não oferece ambiente para experiências românticas. O time tricolor venceu seus três compromissos mais recentes no MorumBIS, contra Red Bull Bragantino, Atlético-MG e Internacional, e soma 13 vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas em 19 jogos no estádio em 2026. Está em 11º lugar, com 36 pontos em 27 partidas, apenas dois atrás do Santos. Não é um clássico decorativo nem uma passarela para apresentar reforço. É confronto direto de tabela em uma casa onde o anfitrião costuma mandar. A suspensão de Jonathan Calleri representa uma ausência importante para o São Paulo, mas não muda a obrigação santista de preservar sua estrutura. Clássico adora punir vaidade tática. Basta um treinador confundir nome com momento para o futebol entregar a conta com juros e um sorrisinho debochado.

Cuca terá de mexer, claro. Gabriel Bontempo está com a Seleção Brasileira após convocação de Carlo Ancelotti; Neymar segue em transição física; Gabriel Brazão se recupera de cirurgia no ombro esquerdo. Ao mesmo tempo, Willian Arão e Barreal voltaram à relação. Há decisões a tomar, encaixes a ajustar e ausências reais a administrar. Justamente por isso, inventar uma alteração adicional apenas para promover Coutinho seria um luxo desnecessário. A falta de Bontempo pode abrir possibilidades no setor, mas vaga disponível não significa trono vazio. O critério deve ser coletivo: quem oferece equilíbrio para começar e quem pode alterar o roteiro depois. Pela condição física, pelo tempo sem atuar e pela boa fase santista no campeonato, Coutinho pertence ao segundo grupo neste momento.

Clássico não é cerimônia de posse.

Existe também uma questão de mensagem interna. Quatro vitórias seguidas não podem valer menos que um anúncio de impacto. Se os jogadores que construíram a reação forem afastados por decreto, o discurso de competição perde credibilidade na primeira curva. O elenco percebe essas coisas antes da torcida, e percebe tudo. A melhor maneira de incorporar Coutinho não é estender tapete vermelho; é fazê-lo entrar em uma equipe funcional, com responsabilidade definida e sem a obrigação infantil de resolver sozinho. Se decidir o San-São saindo do banco, melhor ainda: ganha confiança, Cuca ganha uma alternativa poderosa e o Santos ganha sem sacrificar a lógica. Depois, com minutos acumulados e resposta física, a discussão sobre titularidade ficará legítima. Agora, não existe discussão honesta.

Craque entra. Grife espera.

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