No 21º aniversário, CT Rei Pelé escapa do leilão — mas segue da União
O acordo afasta o leilão, mas não entrega o CT ao Santos: são R$ 23 milhões de dívida e custo-base de R$ 333,3 mil por mês durante dez anos.
Publicado em

A caneta encosta no papel e, por alguns minutos, a palavra mais perigosa do futebol brasileiro não é rebaixamento. É escritura. No Palácio do Planalto, em 1º de outubro de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva, Marcelo Teixeira, Pepe, Clodoaldo e Serginho Chulapa acompanham a assinatura do acordo sobre o CT Rei Pelé. A data tem peso: exatamente 21 anos antes, o Santos inaugurava a primeira fase da estrutura. O cenário parecia de entrega das chaves. Só faltou um detalhe, desses que costumam morar nas letras menos festivas do contrato: a casa não mudou de dono.
O acordo foi importante, necessário e, no limite, salvou o Santos de um desastre patrimonial e esportivo. O leilão do terreno, marcado para 4 de agosto, havia sido suspenso após recomendação do Ministério Público Federal. Agora, foi definitivamente revogado. Não é pouca coisa. Perder o centro de treinamento seria desmontar parte da rotina do clube, atingir o futebol profissional e transformar um problema financeiro em trauma institucional.
Evitar o leilão foi uma vitória; chamar aluguel de posse foi propaganda.
É aí que a celebração da diretoria sai da faixa central e pisa na cal. O comunicado oficial recebeu o título “CT Rei Pelé fica com o Clube”. Marcelo Teixeira declarou: “A tranquilidade de mantermos o CT Rei Pelé com nosso Clube não tem preço”. Tem, sim. E ele está detalhado em parcelas, correção monetária, cessão onerosa e possíveis passivos tributários.
O Santos recebeu o direito de usar o terreno por 20 anos, com possibilidade de prorrogação por mais 20. A propriedade continua sendo da União. Portanto, o clube não ganhou escritura, não comprou o imóvel e tampouco recebeu uma doação. Renovou, em condições formalizadas, o direito de permanecer numa casa pública — e pagará por isso.
A diferença não é preciosismo de advogado querendo estragar a foto. É o coração do acordo. Uma coisa seria anunciar que o Santos garantiu a permanência no CT e afastou o leilão. Correto, relevante, digno de comemoração. Outra é sugerir que o patrimônio “fica com o clube”, como se a assinatura tivesse colocado a União para fora do registro imobiliário. Celebrar assim é como o inquilino trocar o chuveiro e anunciar que comprou o prédio.
A conta começa pelos R$ 23 milhões que o Santos reconheceu como dívida líquida e certa pelo uso do imóvel entre setembro de 2017 e agosto de 2026. O valor será quitado em 120 parcelas mensais, todas corrigidas pelo IPCA. A prestação inicial equivale a aproximadamente R$ 191,7 mil por mês.
Além do retrovisor, há o pedágio da estrada daqui para a frente. A cessão do terreno custará inicialmente R$ 1,7 milhão por ano, também corrigido pelo IPCA — cerca de R$ 141,7 mil mensais. Somadas as duas obrigações, o desembolso-base chega a aproximadamente R$ 333,3 mil por mês durante dez anos, antes das correções e dos passivos tributários.

Não é uma parcela decorativa perdida no orçamento. O Santos fechou o primeiro semestre de 2026 com déficit de R$ 119,7 milhões, bem acima dos R$ 73,7 milhões previstos. Em 30 de junho, o Conselho Fiscal calculava um passivo total de R$ 1,241 bilhão; o balancete da diretoria reconhecia R$ 1,193 bilhão. Até a divergência entre os números já seria suficientemente grande para exigir mais sobriedade no discurso.
O relatório financeiro do segundo trimestre também registrou oito parcelamentos tributários ativos e uma Certidão Negativa de Débitos vencida por parcelas pendentes. Nesse ambiente, vender tranquilidade absoluta é brincar de corretor com o telhado pingando. O acordo resolve um perigo imediato, mas cria uma obrigação longa, indexada e cercada de consequências em caso de tropeço.
Se houver inadimplência, o saldo restante da dívida poderá vencer antecipadamente e ser alvo de execução extrajudicial ou inscrição em dívida. O Santos ainda assumiu responsabilidade exclusiva por regularizar e quitar eventuais débitos municipais ligados ao imóvel, especialmente passivos de IPTU, além dos custos de disputas administrativas ou judiciais. Em português de arquibancada: não basta pagar o aluguel; qualquer conta velha encontrada debaixo do tapete também pode cair no colo alvinegro.
Patrimônio não se protege com confete. Protege-se com caixa.
É natural que o torcedor respire aliviado. As vitórias recentes sobre Internacional, Cruzeiro e Remo no Brasileiro ajudaram a devolver algum oxigênio ao ambiente, ainda que setembro também tenha trazido o 4 a 2 sofrido diante do Atlético-MG pela Sul-Americana, depois de o Santos vencer o mesmo adversário por 2 a 0. Mas resultado de domingo não corrige boleto de segunda-feira. A bola pode entrar aos 48; o IPCA não perde prazo.
O ponto mais importante do contrato, olhando além da festa, está numa porta que ainda não foi aberta. Durante a vigência da cessão, a União poderá decidir vender o terreno caso entenda que não há mais interesse público, econômico ou social em mantê-lo. Nessa hipótese, o Santos poderá exercer o direito de preferência, desde que cumpra os requisitos legais.
Poderá. Não significa que comprará.
O terreno tem 38,9 mil metros quadrados e foi avaliado em R$ 79,7 milhões, já consideradas as benfeitorias realizadas no local. Essa avaliação não deve ser tratada como preço automático de uma eventual venda futura, mas funciona como um aviso bastante eloquente sobre a dimensão do desafio. Direito de preferência sem capacidade financeira é apenas o privilégio de assistir à venda da primeira fila.
Uma chave sem dinheiro para a compra continua sendo uma chave emprestada.
É aqui que Marcelo Teixeira precisa trocar o marketing pelo planejamento. A diretoria deveria apresentar ao Conselho e ao torcedor um plano específico para o CT: previsão anual do custo da cessão, impacto das parcelas corrigidas pelo IPCA, levantamento transparente dos passivos municipais, reserva financeira para contingências e cenários reais de aquisição caso a União coloque o terreno à venda. Também precisa explicar de onde viria o dinheiro — receitas extraordinárias, financiamento, parceiro, fundo patrimonial ou combinação dessas alternativas.
Não se trata de comprar o imóvel amanhã. Trata-se de não chegar a uma eventual venda com a mesma organização de quem procura o boleto cinco minutos antes do vencimento. O Santos já conhece o tamanho da casa, a avaliação do terreno e a existência da porta de preferência. Fingir que a porta não existe porque a cerimônia rendeu uma manchete simpática seria uma irresponsabilidade.

A presença de Pepe, Clodoaldo e Serginho Chulapa deu à assinatura uma moldura afetiva poderosa. Faz sentido. Um centro de treinamento batizado em homenagem a Pelé carrega mais do que paredes, gramados e salas. Carrega memória, identidade e a obrigação de não tratar o patrimônio do clube como peça de campanha. Justamente por isso, a comunicação deveria ser impecavelmente honesta.
O Santos fez um bom acordo diante do risco que estava colocado. Tirou o CT do leilão, garantiu duas décadas de uso e abriu a possibilidade de mais duas. O mérito acaba aí — e já seria mérito suficiente. Transformar cessão onerosa em conquista de propriedade enfraquece a própria vitória, porque troca informação por ilusão.
O CT Rei Pelé escapou do martelo, não ganhou escritura.
No 21º aniversário da estrutura, o Santos preservou o endereço. Agora precisa construir a condição de um dia preservar o imóvel. Até lá, por mais confete que caia no Planalto, a chave continuará no bolso da União.
Times citados nesta matéria
Receba as próximas matérias
Matérias relacionadas

Santos recusou R$ 25 milhões e agora aceita R$ 9,3 milhões líquidos iniciais por Chermont
Negócio com o Sharjah deixa só R$ 9,3 milhões líquidos ao Santos — menos que um mês de direitos de imagem. Conselho deve abrir o contrato e cobrar Marcelo Teixeira.

O Santos adia Gabigol, mas a conta não espera a eleição
Gabigol entrega como estrela, mas o Santos empurra a decisão para dezembro. Com dívida bilionária e folha inchada, negociar agora é obrigação, não luxo.

A Adidas obrigou o Santos a pôr preço no próprio tamanho
Com seis anos e presença em cerca de 120 lojas, a proposta expõe o ponto central: a Umbro só cobre a oferta se igualar também a distribuição global.