Fé não ocupa a área: Domínguez tem de escalar um 9
Os desfalques pesam, mas não absolvem Domínguez: para reverter a vantagem do Grêmio, o Atlético-MG precisa entrar com um centroavante.
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Em 2014, o Atlético transformou uma derrota por 2 a 0 para o Flamengo em uma vitória por 4 a 1 na volta. Aquela noite entrou para a história como prova de que certos abismos podem ser atravessados. O problema é quando a lembrança deixa de ser inspiração e vira uma espécie de cheque pré-datado emocional: basta acreditar, empurrar, repetir que “aqui é Galo” e esperar que o passado pague a conta.
Doze anos depois, a situação é parecida no placar e muito diferente na construção. O Atlético voltou de Porto Alegre derrotado pelo Grêmio por 2 a 0, na ida da semifinal da Copa do Brasil, e precisa vencer por três gols de diferença na Arena MRV para avançar no tempo normal. Se devolver os dois gols, leva a decisão para os pênaltis.
É possível? Claro. Só aconteceu três vezes na história das semifinais da competição, mas uma delas foi justamente aquela virada atleticana de 2014. Impossível não é. O que não dá é tentar fabricar outro milagre sem colocar gente dentro da área.
Fé ajuda a empurrar o time. Quem empurra a bola para o gol é centroavante.
O estrago está à vista
A autópsia começa pelo placar, mas ele é apenas a camada mais visível do problema. A derrota para o Grêmio foi a quarta consecutiva do Atlético. Antes dela vieram o 2 a 0 para o Montevideo City Torque, o 3 a 2 para o Flamengo e o 1 a 0 diante do Cruzeiro. Nesse trecho, foram dois gols marcados e oito sofridos.
Não é uma oscilação discreta. É uma sirene.
Na Arena do Grêmio, o Atlético começou a cavar a própria desvantagem aos dez minutos. Weverton lançou, Lyanco errou o combate à bola longa e Carlos Vinícius abriu o placar. No primeiro minuto da etapa final, João Pedro cruzou rasteiro e Noriega fez o segundo. Dois golpes em momentos cruéis: um antes de o jogo ganhar corpo, outro quando o time deveria voltar do intervalo pronto para reagir.
Esses erros individuais precisam entrar no laudo. Lyanco falhou no primeiro gol, e a defesa não impediu a construção do segundo. Seria confortável demais atribuir tudo ao treinador e fingir que Domínguez estava no gramado disputando bola aérea ou fechando o cruzamento. Não estava.
Mas a análise não termina aí. Se terminasse, seria boletim de ocorrência, não autópsia.
A primeira causa: o departamento médico esvaziou o ataque
Mateo Cassierra e Thiago Borbas, os dois centroavantes experientes do elenco, não foram relacionados porque estavam lesionados. Domínguez afirmou que esperava contar com Borbas no jogo de ida e que Cassierra tentava acelerar a recuperação. Reinier também ficou fora após sofrer uma lesão muscular na coxa contra o Cruzeiro.
É muito desfalque no mesmo setor. Qualquer treinador sentiria. Domínguez não abriu o armário e encontrou três opções prontas, descansadas e embrulhadas para presente. Encontrou limitações reais, daquelas que desmontam o plano da semana e obrigam a improvisar.
Isso explica por que o Atlético chegou remendado a Porto Alegre.
Não explica o remendo escolhido.
Desfalque explica a prancheta; não assina salvo-conduto para ela.
O único centroavante de origem relacionado era Cauã Soares, nascido em 30 de junho de 2008 e com contrato até dezembro de 2027. Um garoto de 18 anos, portanto, colocado diante de uma semifinal de Copa do Brasil fora de casa. Não era uma escolha confortável. Talvez nem fosse a escolha ideal.
Era, porém, uma escolha de centroavante.
A segunda causa: uma camisa 9 de papelão
Domínguez preferiu escalar o meia Victor Hugo como referência central. E aqui convém separar os personagens, porque a escalação ofereceu uma pegadinha de almanaque: Victor Hugo, o meia, começou no ataque; Vitor Hugo, o zagueiro, começou na defesa.
O meia pode circular, aproximar, receber entre linhas e ajudar a dar qualidade ao ataque. O que ele não pode fazer é adquirir, por ordem técnica, os movimentos de um camisa 9. Improvisá-lo como referência foi como entregar uma fantasia de tubarão a alguém e esperar que ele desenvolvesse guelras.

A área tem linguagem própria. Exige ataque ao primeiro pau, presença entre os zagueiros, ocupação do rebote, disputa física e aquela inconveniência profissional de quem transforma qualquer cruzamento ruim em confusão. Um meia improvisado pode até cumprir parte do roteiro. Dificilmente dará peso constante ao último terço.
O Atlético precisava ameaçar. Em vez disso, escolheu começar sem seu único atacante de ofício disponível. O resultado mais simbólico apareceu já aos 48 minutos do segundo tempo: a chance mais perigosa da equipe na etapa final foi uma finalização do zagueiro Vitor Hugo no travessão.
Quando a melhor chance ofensiva termina no pé de um defensor nos acréscimos, a escalação está deixando um bilhete bem pouco sutil.
A bola no travessão de Vitor Hugo foi menos azar do que confissão.
A causa decisiva: Domínguez demorou demais
Cauã Soares só entrou aos 37 minutos do segundo tempo, quando o Atlético já perdia por 2 a 0. O relógio entrava no minuto 83. Restavam os suspiros finais de uma partida que já havia escapado.
É esse o ponto que condena a decisão de Domínguez. Não por ter evitado jogar toda a responsabilidade sobre um garoto. A cautela inicial até poderia ser discutida. O inadmissível foi assistir ao time sem presença de área, sofrer o segundo logo na volta do intervalo e ainda esperar quase todo o segundo tempo para recorrer ao único centroavante disponível.
Cauã poderia ter entrado e ido mal. Poderia sentir o tamanho do jogo, perder duelos, errar movimentos. Tudo isso faz parte do risco. Só não fazia sentido protegê-lo tanto a ponto de tornar sua entrada praticamente decorativa. Jogador jovem não precisa ser lançado como salvador, mas também não pode ser tratado como extintor guardado atrás de um vidro que ninguém tem coragem de quebrar.
Depois da partida, Domínguez disse: “É melhorar, acreditar e ter fé. Eu tenho fé no grupo.” A frase é legítima. Um treinador precisa transmitir convicção, sobretudo quando o ambiente ameaça desabar. Só que fé sem ocupação de área vira vela acesa diante de um muro de dois gols.

O maior erro agora seria repetir a dose na Arena MRV. Se Cassierra ou Borbas estiver recuperado, um deles tem de começar. Não aos 20 do segundo tempo, não depois de o desespero tomar conta, não quando os zagueiros já estiverem sendo empilhados no ataque. Desde o primeiro minuto.
Se nenhum dos dois estiver disponível, Domínguez precisa bancar Cauã Soares. Com proteção ao redor, responsabilidade dividida e uma estrutura que não exija do garoto a solução de todos os males. Escalá-lo não significa pedir que resolva sozinho; significa reconhecer que posições existem por um motivo.
Entre o Botafogo e Barranquilla, a decisão não pode esperar
O calendário ainda oferece mais uma armadilha. Antes da volta contra o Grêmio, marcada para 7 de novembro, às 18h, o Atlético enfrenta o Botafogo no dia 4, às 21h30, no Nilton Santos. E, em 21 de novembro, haverá a final da Copa Sul-Americana contra o Boca Juniors, em Barranquilla.
Há desgaste, lesões e jogos enormes amontoados. Tudo verdade. Mas a temporada não permite que o Atlético trate a semifinal da Copa do Brasil como sala de recuperação. A desvantagem exige agressividade desde a escalação. O time pode até ser eliminado jogando com um 9; mata-mata não oferece garantia. Entrar novamente com um meia improvisado, porém, seria confundir prudência com medo.
Domínguez ainda tem a chance de corrigir a escolha. Precisa olhar menos para o risco de expor Cauã e mais para o risco evidente de não ameaçar o Grêmio. Em 2014, o Atlético reverteu dois gols porque transformou a noite em ataque, pressão e urgência. A lembrança deve servir como combustível, não como superstição.
Tentar buscar três gols sem centroavante não é coragem alternativa. É covardia tática fantasiada de cautela.
Na Arena MRV, a fé pode entrar em campo. Mas a camisa 9 precisa entrar primeiro.
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