Kike Olivera virou um ativo que ninguém consegue usar
O Bahia tem razão ao exigir compensação, mas isolar Kike só prolonga o prejuízo. É hora de cobrar a conta e encerrar um empréstimo que já morreu.
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O empréstimo de Kike Olivera ao Bahia já acabou no único lugar que realmente importa: o campo. Falta apenas alguém avisar ao contrato.
O atacante pertence ao Grêmio, está cedido ao Bahia e entrou no radar do Nacional, do Uruguai. A equação parece simples até os departamentos jurídicos se sentarem à mesa. O clube baiano não pretende abrir mão de graça de um jogador pelo qual assumiu compromisso esportivo e financeiro. O Nacional quer levá-lo. O Grêmio, dono dos direitos, precisa destravar o negócio. E Kike, enquanto isso, fica à margem.
Cada parte apresenta um argumento defensável. O problema é que, somados, esses argumentos produziram a pior solução possível para todos.
O Bahia está certo em cobrar. Está errado em deixar o prejuízo treinando sozinho.
A razão do Bahia — e o limite dela
Não existe obrigação moral de rasgar um empréstimo só porque apareceu outro interessado. O Bahia planejou elenco, reservou espaço, assumiu custos e recebeu garantias. Se o Nacional deseja interromper esse vínculo, deve existir compensação. Caso contrário, cria-se o precedente de que contrato de empréstimo vale até o primeiro telefonema mais sedutor.
Nesse ponto, a diretoria baiana tem razão.
Mas compensação é instrumento de negociação, não troféu para colocar na sala do presidente. Quando o jogador já não participa do projeto e passa a trabalhar separado, a postura firme começa a escorregar para a teimosia. A partir daí, o Bahia não protege um ativo: apenas administra sua desvalorização.

Kike virou uma espécie de carro de luxo sobre cavaletes. O documento está com o Grêmio, a chave ficou no Bahia, o Nacional tenta rebocá-lo — e o taxímetro segue rodando como se alguém estivesse a caminho do aeroporto.
O mais curioso é que o Bahia atravessa uma sequência competitiva no Campeonato Brasileiro. Depois de vencer a Chapecoense por 2 a 0, empatou com Atlético-MG e Corinthians por 1 a 1 e ficou no 0 a 0 diante do Fluminense. São quatro partidas sem derrota, embora os três empates consecutivos mostrem um time que tem encontrado mais controle do que contundência.
Não se trata, portanto, de dizer que Kike resolveria sozinho o ataque. Esperar isso seria como pedir ao bandeirinha que conserte o VAR com uma chave de fenda. A questão é outra: se ele ainda está sob controle esportivo do Bahia, deve ser utilizado; se não está mais nos planos, o clube precisa transformar sua saída em dinheiro e encerrar o assunto.
O meio-termo atual não entrega gol, não entrega compensação e não preserva valor de mercado.
Jogador parado não é patrimônio protegido. É patrimônio vencendo no sol.
O Grêmio não pode assistir de camarote
O Grêmio é o dono dos direitos de Kike. Logo, não pode se comportar como um vizinho curioso acompanhando a discussão pela janela. É responsabilidade do clube gaúcho liderar uma solução que satisfaça minimamente o Bahia e permita ao jogador seguir a carreira.
Ainda mais porque o próprio Grêmio vive um momento em que deveria tratar cada ativo com cuidado. Nos cinco compromissos recentes listados, não venceu: perdeu para o Mirassol no Brasileiro, sofreu duas derrotas diante do Bolívar pela Sul-Americana, empatou com o Fluminense e voltou a ficar no 1 a 1 com o Mirassol, desta vez pela Copa do Brasil.
Isso não significa que Kike precise voltar imediatamente para vestir a camisa e ser anunciado como salvação. Futebol brasileiro já produziu messias de aeroporto suficientes para abastecer várias igrejas. Significa apenas que o Grêmio deve agir como proprietário do jogador, e não como espectador de uma queda de braço entre Bahia e Nacional.
Há espaço para uma composição objetiva. O Nacional pode compensar o Bahia pela interrupção. O Grêmio pode assumir parte desse custo para liberar um patrimônio que hoje não joga. A negociação também pode combinar valor fixo, economia salarial e metas esportivas. Não falta engenharia. Falta vontade de assinar a planta.
O que não dá é para cada clube defender apenas o próprio centímetro da mesa enquanto o jogador perde ritmo, exposição e valor.
E a responsabilidade de Kike?
Kike também não deve ser tratado como passageiro inocente de uma confusão criada exclusivamente pelos dirigentes. Contrato exige profissionalismo, e o desejo de mudar de clube não apaga obrigações. Se o atacante manifestou preferência pelo Nacional, cabe a ele e a seus representantes ajudar a construir uma saída, não apenas esperar que Bahia e Grêmio resolvam tudo.
Só que clube profissional não pode administrar patrimônio com ressentimento. Mesmo que o jogador tenha forçado o movimento, isolá-lo por tempo indeterminado é uma resposta emocional vestida de decisão administrativa. Dá sensação de autoridade por alguns dias e produz prejuízo por meses.
Punição que reduz o valor do próprio jogador é vingança paga em parcelas pelo clube.
O Bahia deve estabelecer um preço realista para abrir mão do restante do empréstimo e dar prazo curto para Nacional e Grêmio responderem. Se houver pagamento, encerra-se o vínculo. Se não houver, Kike precisa ser reintegrado e tratado como atleta do elenco enquanto o contrato estiver de pé. A pior alternativa é justamente a atual: nem negócio, nem futebol.
Não é necessário que os três clubes saiam comemorando. Negociação boa, muitas vezes, termina com todo mundo um pouco contrariado. O Bahia recebe pelo que está cedendo, o Grêmio recupera o controle sobre seu ativo, o Nacional fica com o jogador desejado e Kike volta a fazer aquilo que dá sentido a toda essa papelada: jogar bola.
O maior erro agora seria transformar uma cobrança legítima em concurso de resistência. O contrato pode até dar ao Bahia o direito de esperar. A lógica esportiva manda parar.
A conta precisa ser paga. O prejuízo não precisa continuar treinando todos os dias.
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