Marcelo Paz é cortina de fumaça: a dívida que pode desmontar o Corinthians

Com três meses de direitos de imagem atrasados, o clube abriu base legal para rescisões. Stabile precisa pagar o elenco antes de mexer no organograma.

Publicado em

Osmar Stabile esconde uma conta de direitos de imagem atrás de uma cortina, diante de jogadores com pastas judiciais.

O Corinthians abriu a própria porta.

Não a do vestiário, nem a do mercado da bola. Abriu uma porta jurídica para que jogadores tentem deixar o clube. Ao completar três meses consecutivos de atraso nos direitos de imagem do elenco masculino, a direção ultrapassou o limite previsto pela Lei Geral do Esporte para fundamentar pedidos de rescisão indireta.

Esse é o estrago. Todo o resto — demissão de executivo, troca de nomes, promoção interna, reunião no CT — virou cenário montado ao redor do corpo.

O cadáver esportivo

O Corinthians está em 16º lugar no Brasileirão, com 33 pontos após 31 rodadas. Tem somente um de vantagem para o Internacional, primeiro clube dentro do Z-4. São nove partidas consecutivas sem vitória na competição, e o empate por 1 a 1 com o Vitória, em 19 de outubro, apenas encerrou uma sequência de oito derrotas.

A situação já seria grave se o problema terminasse no gramado. Não termina. Um time pressionado pelo rebaixamento precisa de concentração, ambiente minimamente estável e alguma confiança na instituição que assina os contratos. O Corinthians oferece ao elenco a tabela na mão e o boleto vencido na outra.

Clube nenhum cai apenas por falta de pontos; também cai por falta de palavra.

O próximo compromisso será contra o Vasco, em 24 de outubro, às 18h30, em São Januário. O adversário ocupa a 15ª posição, com 35 pontos. É confronto direto, daqueles em que cada dividida parece carregar um tijolo do estádio nas costas. Só que o peso corintiano não vem apenas da classificação. Vem da dúvida mais elementar possível numa relação profissional: quando o clube vai pagar?

A pista conveniente

Marcelo Paz foi demitido em 20 de outubro, depois de uma reunião no CT Joaquim Grava. Antes do encontro, ele havia questionado Osmar Stabile sobre mais um atraso nos direitos de imagem.

A sequência dos fatos não permite afirmar que uma coisa causou a outra. Permite, porém, enxergar a conveniência política da demissão. Quando o time não ganha, o executivo é uma vidraça útil. Faz barulho ao quebrar, rende manchete e oferece à torcida a sensação de que alguém tomou uma providência.

Mas providência para quê?

Paz pode ter cometido erros e sua permanência poderia ser discutida. Nada disso altera o vencimento de uma obrigação. Nada disso deposita dinheiro na conta dos atletas. A saída dele funciona como cortina de fumaça porque desloca a conversa: em vez de explicar o caixa, a direção passa a debater o organograma.

Organograma não paga boleto.

Trocar Marcelo Paz, promover Júlio César, procurar outro executivo ou esperar um milagre de Seedorf antes de regularizar o elenco seria como reorganizar os porta-retratos enquanto a sala está alagada. Fica tudo alinhadinho — e boiando.

Dirigentes mexem em um organograma enquanto boletos alagam a sala e jogadores entram em um bote.

O episódio se torna ainda mais incômodo porque Paz levou o atraso à mesa de Stabile antes de sair. O dirigente que fez a pergunta foi embora. A pergunta ficou. E ela é muito mais perigosa do que qualquer discussão sobre quem ocupará determinada cadeira no futebol.

A causa jurídica

Em 20 de outubro, o Corinthians não pagou os direitos de imagem referentes a setembro e completou o terceiro mês consecutivo de inadimplência nessa rubrica. Segundo estimativa da própria Diretoria Financeira, os direitos de imagem do elenco custam aproximadamente R$ 10 milhões por mês.

O artigo 90, parágrafo 1º, da Lei Geral do Esporte estabelece que dois meses ou mais de atraso salarial ou de direitos de imagem podem fundamentar a rescisão indireta do contrato do atleta. O Corinthians não está se aproximando dessa faixa. Já passou por ela.

Isso não significa que os contratos sejam rompidos automaticamente. O jogador precisa recorrer à Justiça do Trabalho ou à Câmara Nacional de Resolução de Disputas da CBF e obter uma decisão favorável. A distinção é importante, mas não serve de calmante. A base legal existe; a iniciativa depende de cada atleta.

Disputar o rebaixamento com jogadores autorizados a procurar a saída jurídica é gestão no limite da irresponsabilidade.

Os salários registrados em carteira estão atualmente em dia, embora tenham sofrido atrasos recorrentes ao longo de 2026. O clube também ainda deve premiações da Libertadores e do Brasileirão. Portanto, não se trata de um acidente isolado nem de um esquecimento administrativo perdido numa sexta-feira. Existe um histórico recente de compromissos empurrados para depois.

A hemorragia financeira

A autópsia fica mais feia quando se abre o balanço. O Corinthians acumulou déficit de R$ 278,705 milhões nos sete primeiros meses de 2026. O resultado foi 258% pior que o prejuízo de R$ 77,862 milhões previsto no orçamento para o período.

Desde 21 de maio, o clube está impedido de registrar reforços e tinha três transfer bans ativos, ligados a dívidas que somavam aproximadamente R$ 21,5 milhões. Ou seja: enquanto a equipe afunda na tabela, a direção nem sequer dispõe normalmente da ferramenta mais óbvia para tentar corrigi-la, que é contratar.

E há mais. Em 20 de outubro, o Cuiabá pediu à CNRD um transfer ban de dois anos contra o Corinthians, além do cancelamento do certificado de clube formador, da dissolução do plano coletivo de pagamento e de uma investigação da ANRESF. O pedido nasceu dos atrasos na dívida pela compra de Raniele. A parcela mais recente não paga foi estimada em R$ 8 milhões, enquanto uma prestação vencida em julho seguia pendente.

O plano coletivo do Corinthians na CNRD prevê R$ 76 milhões em pagamentos trimestrais durante seis anos. Um mecanismo criado para organizar dívidas perde credibilidade quando as próprias parcelas passam a atrasar. Não há engenharia financeira capaz de sobreviver se o calendário for tratado como sugestão.

O responsável que sobrou

Retirados o desempenho ruim, a pressão da torcida, Marcelo Paz e as possíveis mudanças no departamento de futebol, sobra o verdadeiro centro da crise: a presidência precisa garantir que o Corinthians honre seus contratos.

Osmar Stabile deve quitar imediatamente os direitos de imagem atrasados e apresentar um calendário público de pagamentos. Não uma promessa genérica, não uma conversa reservada com líderes do elenco, não o velho “estamos trabalhando”. O clube precisa informar o que será pago, quando será pago e como pretende impedir que o atraso se repita.

A transparência não coloca dinheiro no caixa, mas a ausência dela multiplica a desconfiança. Jogadores, empresários, credores e torcida olham para os mesmos números. Fingir normalidade apenas transforma cada vencimento numa nova crise — e cada crise numa oportunidade para alguém procurar a Justiça.

Depois disso, Stabile pode discutir Júlio César, outro executivo, Seedorf ou quem desejar. Pode reformular o futebol inteiro. Antes, porém, precisa entender uma verdade simples: ninguém reconstrói um time ameaçado de rebaixamento tornando o próprio contrato uma ameaça ao jogador.

Se o presidente quiser encontrar o adversário mais perigoso do Corinthians, não precisa olhar a tabela.

Basta abrir o contas a pagar.

Times citados nesta matéria

Compartilhar:WhatsAppX

Receba as próximas matérias

As melhores matérias do futebol brasileiro no seu e-mail, sem spam.

Ao assinar, você concorda em receber nossos e-mails. Pode cancelar quando quiser.