O playoff passou no primeiro teste: a CBF acertou na reforma da Série B

Com seis pontos entre o sexto e o 11º a três rodadas do fim, o playoff esticou a disputa pelo acesso sem jogar fora o mérito construído em 38 jogos.

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Jogadores deixam redes de descanso ao som de um despertador de playoff e correm atrás de fichas de pontos.

A Série B recusou-se a acabar cedo.

Faltam três rodadas, há nove pontos em disputa e o São Bernardo, 11º colocado, ainda consegue olhar para o sexto lugar sem precisar de binóculo. O CRB ocupa essa última posição do playoff com 55 pontos; Sport e Atlético-GO têm 54, o Goiás soma 52, o Operário-PR aparece com 51 e o São Bernardo, com 49. Seis pontos separam seis clubes.

É aí, nesse congestionamento em que qualquer tropeço muda o humor de uma cidade inteira, que a reforma da Série B passou no primeiro teste.

O playoff deve ser mantido.

Não porque mata-mata seja automaticamente mais emocionante, nem porque pontos corridos tenham perdido valor. A CBF acertou justamente porque encontrou uma maneira de esticar a disputa pelo acesso sem transformar as 38 rodadas em papel de embrulho. A competição continua exigindo regularidade, mas deixou de condenar boa parte da tabela à melancolia antecipada.

Sem o G6, o São Bernardo já não teria como alcançar o atual quarto colocado. Com o novo formato, segue vivo. Não é um detalhe publicitário. É a diferença entre disputar novembro com a faca nos dentes ou entrar em campo com aquele entusiasmo de quem foi chamado para uma reunião que poderia ter sido um e-mail.

Não é loteria. É drama com memória.

A fotografia após 35 rodadas ajuda a entender. Novorizontino e Juventude lideram com 64 pontos, 18 vitórias, dez empates e sete derrotas cada. O Novorizontino aparece à frente pelo saldo: +32 contra +22. Logo atrás, o Vila Nova soma 62, o Fortaleza tem 61 e o Criciúma, 59. O CRB fecha o G6 com 55.

Na rodada mais recente, o Novorizontino venceu o Atlético-GO por 1 a 0 fora de casa. O Juventude respondeu com uma goleada por 4 a 0 sobre o Náutico. Os dois já asseguraram ao menos presença no G6 e, mesmo na pior hipótese, disputarão o playoff. Mas ninguém ali quer prêmio de consolação: campeão e vice sobem diretamente para a Série A de 2027.

Os cálculos da UFMG publicados depois da 35ª rodada dimensionam o tamanho dessa corrida. O Novorizontino tem 75,9% de chance de acesso direto; o Juventude, 64,1%; o Vila Nova, 40,4%; o Fortaleza, 12,3%; e o Criciúma, 7,4%. Ao mesmo tempo, a universidade ainda atribuía alguma probabilidade de participação no playoff a 11 equipes — do líder ao São Bernardo.

Parece contraditório? É exatamente o contrário. A tabela permite que um líder ainda corra o risco de cair para a repescagem e que o 11º colocado ainda sonhe em alcançá-la. Isso não desvaloriza a liderança. Torna a liderança mais valiosa, porque os dois primeiros escapam de mais dois jogos carregados de tensão.

E aqui está a parte que os críticos do formato costumam pular: os classificados não entram em condições esportivas idênticas.

Todos começarão o playoff com zero ponto, independentemente do que tenham somado durante as 38 rodadas. Certo. Porém, terceiro e quarto colocados farão a partida de volta em casa. Mais importante: se os confrontos terminarem empatados em pontos e saldo de gols, avançará quem tiver obtido a melhor colocação na fase de pontos corridos. Não haverá pênaltis nesse cenário.

Árbitro troca uma roleta por uma balança, enquanto terceiro e quarto colocados seguram chaves de vantagem.

A campanha, portanto, não compra a classificação. Compra vantagem. É uma distinção saudável. Quem terminou acima não recebe passagem automática, mas também não vê dez meses de trabalho evaporarem porque a bola bateu no joelho de alguém e entrou aos 48 minutos.

Premiar a campanha não significa proibir o risco.

O terceiro enfrentará o sexto; o quarto medirá forças com o quinto. Se a Série B terminasse com a classificação atual, Vila Nova e Fortaleza teriam a volta diante de suas torcidas e carregariam a melhor campanha como critério final de desempate. CRB e Criciúma precisariam derrubar essa vantagem no campo. É duro? Deve ser. Foram 38 rodadas para construir a hierarquia.

Chamar isso de cassino é preguiça. Tratar qualquer mata-mata como loteria é como chamar goleiro de apostador porque ele escolheu um canto. Existe acaso no futebol, claro. Sempre existiu, inclusive nos pontos corridos. A diferença é que o regulamento criou travas para impedir que uma noite ruim apague completamente a superioridade acumulada.

Há ainda um acerto menos vistoso, daqueles que só ganham atenção quando provocam confusão. Os cartões amarelos serão zerados antes do playoff, evitando que advertências espalhadas pela competição contaminem a fase decisiva. Suspensões provocadas por cartão vermelho ou pelo terceiro amarelo, contudo, continuarão válidas. Zera-se o histórico comum; não se oferece anistia a quem já saiu da linha. Justo.

A ideia não nasceu sem resistência. No Conselho Técnico, 17 dos 20 clubes aprovaram o formato. Sport e Náutico defenderam a permanência dos quatro acessos diretos. O Fortaleza preferia três vagas diretas e um playoff entre quarto e quinto. Eram posições compreensíveis, sobretudo porque a Série B viveu duas décadas sob outra lógica.

Entre 2006 e 2025, os quatro primeiros colocados subiram diretamente. A última edição da segunda divisão nacional com fase eliminatória havia sido a de 2002. Mexer nesse costume inevitavelmente produziria desconfiança. No futebol brasileiro, regulamento novo costuma ser recebido como parente distante pedindo dinheiro: primeiro vem a suspeita, depois alguém pergunta os detalhes.

Mas os detalhes, desta vez, sustentam a proposta.

O argumento mais forte contra a mudança é óbvio: um terceiro colocado pode fazer uma campanha muito superior à do sexto e, ainda assim, perder o acesso em dois jogos. Pode. Essa possibilidade é a essência do formato, não uma falha escondida. Em compensação, o terceiro decide em casa e avança em caso de igualdade total. Se mesmo com essas duas proteções não conseguir superar o sexto, o problema não estará no regulamento.

O playoff não apaga 38 rodadas; ele obriga que elas sejam lembradas.

Também seria um erro pedir expansão indiscriminada. Colocar metade da tabela no mata-mata, por exemplo, transformaria a fase regular em sala de espera. O G6 funciona porque mantém a fronteira estreita: seis participantes para quatro acessos, com duas vagas diretas reservadas aos melhores e duas disputadas em cruzamentos que favorecem terceiro e quarto. Há prêmio real no topo, pressão no meio e esperança limitada — não esperança de panfleto.

Agora vem a parte que decidirá a percepção pública. Os jogos de ida estão previstos para 21 e 22 de novembro. As voltas, para 27 e 28 de novembro de 2026. Quando a bola rolar, qualquer erro de arbitragem, expulsão ou falha individual será usado para culpar o sistema inteiro. Faz parte. Torcedor não processa derrota com a serenidade de um tabelião.

Ainda assim, a análise precisa sobreviver ao placar. Um formato não deve ser julgado apenas pelo clube que terminar festejando ou amaldiçoando novembro. Deve ser medido pelo que provocou na competição. E, a três rodadas do fim, provocou exatamente o que prometia: disputa direta na ponta, briga feroz pelo G6 e valor concreto para cada posição.

A CBF não inventou uma roleta. Montou dois confrontos com vantagem para quem trabalhou melhor.

Que venham os dias 21, 22, 27 e 28. A Série B já ganhou antes mesmo de conhecer seus sobreviventes.

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