Ramón Díaz não é “fato novo”: Corinthians gira em círculos — e o plano A pode começar suspenso
Após dar 12 dias a Diniz e demiti-lo depois de um jogo, Marcelo Paz recorre a Ramón sem esclarecer suspensão, pendências e quem manda no futebol.
Publicado em

Cena 1 — O videocassete da salvação
A procura do Corinthians por um “fato novo” lembra o fim do Brasileirão de 2024 passando num videocassete emperrado. A fita corre, mostra Ramón Díaz, nove vitórias consecutivas, fuga do rebaixamento e vaga na Libertadores. Então alguém aperta o botão de rebobinar — e voltamos a outubro de 2026, com o mesmo treinador sendo chamado para apagar outro incêndio.
Não deixa de ser uma comparação histórica curiosa: o futuro do clube pode estar escondido justamente no passado que a própria diretoria resolveu descartar.
Ramón virou a primeira opção para substituir Fernando Diniz, com a possibilidade de assinar somente até o fim de 2026. Como escolha de emergência, faz sentido. Ele conhece o Corinthians, sabe trabalhar sob pressão e deixou números fortes: 31 vitórias, 16 empates e 13 derrotas em 60 partidas, aproveitamento de 60,6%. Também conquistou o Paulista de 2025 sobre o Palmeiras, encerrando sete anos de jejum corintiano.
Mas não convém editar a fita para exibir apenas as melhores cenas. Ramón foi demitido em abril de 2025 depois de uma sequência ruim que incluiu a derrota por 2 a 0 para o Fluminense. Naquela ocasião, Memphis Depay expôs publicamente o problema tático: disse que as linhas ficavam separadas por cerca de 50 metros e disparou: “Você vê progresso? Porque eu tenho minhas dúvidas”.
Agora, o treinador dispensado pelo clube reaparece como novidade. É o equivalente futebolístico a encontrar uma camisa no fundo do armário, passar um perfume e anunciá-la como lançamento da coleção.
Ramón pode ser solução de emergência. Não é álibi administrativo.
O ponto não é negar suas credenciais. Para uma equipe na 16ª posição, com 32 pontos, apenas um acima do Internacional, que abre o Z-4, pragmatismo deixou de ser palavrão. O Corinthians precisa pontuar, sobreviver e parar de oferecer ao adversário oportunidades que parecem embrulhadas para presente.
O problema é vender a provável volta como ruptura. Ramón não é ruptura nenhuma. É uma tentativa de recuperar uma fórmula que funcionou até parar de funcionar.
Cena 2 — O volante trocou de mãos
Voltemos ao vestiário de 20 de setembro.
Depois da derrota por 3 a 1 para o Fluminense, Marcelo Paz considerou demitir Diniz. Gustavo Henrique, Rodrigo Garro e Memphis pediram a permanência do treinador. A diretoria ouviu os líderes do elenco e recuou.
Ouvir jogador experiente é saudável. Elenco percebe rachaduras antes de muita gente engravatada. Só que existe uma diferença enorme entre consultar o vestiário e entregar a ele o volante do ônibus. O executivo pode escutar todas as opiniões; no fim, precisa decidir e responder pela decisão.
O vestiário deve ser ouvido. Não pode assinar a caneta do executivo.

O Corinthians concedeu quatro dias de folga e depois deu a Diniz 12 dias sem partidas para preparar o confronto direto com o Internacional. Era a melhor janela de trabalho disponível, uma oportunidade rara para ajustar um time que vinha despencando. Ao final dela, o treinador recebeu exatamente um jogo.
E foi demitido minutos depois.
No Beira-Rio, Vitinho abriu o placar aos 43 segundos. Alan Patrick marcou o segundo aos 32 minutos do segundo tempo, após Garro perder a bola dentro da área, e André descontou dois minutos depois. O Corinthians ainda acertou três bolas na trave, com Matheuzinho, Yuri Alberto e Memphis. Não foi uma atuação sem chances; foi uma equipe sem margem para sobreviver aos próprios erros.
Garro também recebeu o amarelo que o tira do Dérbi contra o Palmeiras. Numa noite decisiva, o Corinthians perdeu o jogo, o treinador e um de seus principais jogadores para o clássico. Pacote completo, com direito a laço preto.
A queda de Diniz não surgiu do nada. A derrota por 2 a 1 para o Internacional foi a sétima consecutiva no Brasileirão. Antes dela vieram Cruzeiro e Coritiba, ambos por 2 a 1; Santos, por 1 a 0; Chapecoense e Flamengo, novamente por 2 a 1; e Fluminense, por 3 a 1.
Os números também contam uma história clara. Diniz terminou com 13 vitórias, oito empates e 12 derrotas em 33 partidas oficiais, aproveitamento de 47,5%. Antes da pausa para a Copa do Mundo, porém, foram nove vitórias, quatro empates e três derrotas em 16 jogos: 64,6%. Nos 17 compromissos posteriores, o rendimento caiu para 33,3%, com quatro vitórias, quatro empates e nove derrotas.
Havia motivos para demiti-lo após o Fluminense. Também era possível bancá-lo durante a pausa e sustentar a convicção por mais de uma partida. O que não faz sentido é oferecer 12 dias de preparação, aguardar o apito final de um jogo cheio de bolas na trave e então descobrir, subitamente, a necessidade de um “fato novo”.
Esperar quase duas semanas para julgar tudo em 90 minutos é como levar o carro à oficina e trocar o motorista porque choveu na volta.
O maior erro de Marcelo Paz não foi demitir Diniz. Foi não saber quando queria demiti-lo.
Cena 3 — O banco com cadeado
Há ainda uma terceira imagem, bem menos conveniente para a narrativa da salvação: Ramón procurando lugar no banco enquanto seis cadeados do STJD ocupam os assentos.
Em 30 de janeiro de 2026, a Terceira Comissão Disciplinar puniu o treinador, em primeira instância, com seis partidas de suspensão e multa de R$ 50 mil. A decisão se baseou no artigo 243-G, depois de Ramón declarar, quando dirigia o Internacional: “O futebol é para homens, não é para meninas, é para homens”.
A decisão admite recurso ao Pleno. Entretanto, reportagens publicadas em 8 de outubro informaram que a suspensão ainda estava pendente.

Isso não é nota de rodapé. Se Ramón é o plano A para comandar o time imediatamente, o Corinthians precisa explicar publicamente a situação processual. Houve recurso? Qual é o efeito da punição neste momento? Ele poderia ficar à beira do campo? Se não, quem comandaria a equipe? Um contrato curto torna essas respostas ainda mais urgentes.
Também existe dinheiro em aberto. O UOL informou, igualmente em 8 de outubro, que o Corinthians ainda tem pendências financeiras com Ramón e integrantes de sua antiga comissão. Antes de recontratar alguém a quem ainda deve, o clube precisa dizer como pretende resolver a conta. Voltar com treinador antigo sem acertar a saída anterior parece menos planejamento esportivo e mais grupo de família tentando remarcar churrasco depois de uma briga.
E o calendário não espera a papelada ganhar carimbo. Palmeiras e Corinthians se enfrentam em 11 de outubro, às 17h30, no Nubank Parque, pela 30ª rodada. Anderson Daronco apita, com Rodolpho Toski Marques no VAR. Marcelo Paz prometeu buscar imediatamente um técnico para o clássico. A pressa é compreensível; a improvisação, não.
As três cenas falam da mesma coisa. Não de Diniz, Ramón ou Memphis, mas de autoridade.
Quem manda no futebol do Corinthians? O executivo que cogita uma demissão, recua diante dos líderes, entrega uma longa preparação e muda tudo após uma partida? O elenco que pede a permanência do treinador e, meses antes, havia criticado publicamente a organização do possível substituto? Ou a urgência da tabela, que toma decisões no lugar de todos?
Fato novo não é trocar o nome na porta. É mudar a lógica dentro da sala.
Ramón merece ser avaliado pelo que pode oferecer agora: comando, conhecimento do ambiente e capacidade de simplificar um time em queda. Marcelo Paz, porém, deve ser cobrado pelo caminho torto até essa escolha. Contratar Ramón pode ser correto. Fingir que isso apaga a condução errática seria mais uma derrota administrativa antes mesmo de a bola rolar.
No Corinthians, o verdadeiro fato novo só aparecerá quando a caneta parar de pedir permissão ao vestiário.
Times citados nesta matéria
Receba as próximas matérias
Matérias relacionadas

A falsa proteção da Super Data Fifa: o Brasileirão volta antes dos jogadores
Após 16 dias de pausa, convocados cruzam continentes e voltam quase sem treino. Sem 72 horas de respiro, servir à seleção vira punição esportiva.

Corinthians tem R$ 1,05 bi de patrimônio negativo: vender 2027 é vender o extintor
Mesmo faturando acima do orçamento, o Corinthians acumulou déficit de R$ 278,7 milhões. A saída é teto no futebol, não antecipar receitas de 2027.

A Arena perdeu o medo: Diniz precisa matar o Dinizismo para salvar o Corinthians
Com nove derrotas em Itaquera e o rebaixamento no retrovisor, o Corinthians precisa trocar o Dinizismo por defesa, simplicidade e pontos nas dez rodadas finais.