A camisa 9 não precisa de um camisa 9: a Seleção deve girar em torno de Raphinha

Ancelotti já testou Raphinha por dentro. Com 19 gols em 13 jogos pelo Barcelona, ele deve ser o eixo da Seleção — sem abrir vaga à força para um 9.

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Ancelotti organiza um quebra-cabeça tático com Raphinha no centro e um manequim de camisa 9 ao lado.

Não, a Seleção não precisa encontrar um camisa 9 para então decidir onde colocar Raphinha. Todo mundo parece obcecado pela procura do “homem-gol”, como se houvesse uma peça faltando no álbum. É o contrário: o homem-gol já está ali. O que falta é parar de empurrá-lo para longe do gol.

Hansi Flick entendeu isso no Barcelona. Tirou Raphinha das funções de ponta e camisa 10, colocou-o mais adiantado e por dentro, com liberdade para atacar espaço e chegar à área. O resultado não exige uma prancheta de 14 metros para ser explicado: são 19 gols nas primeiras 13 partidas oficiais de 2026/27, 15 em La Liga e quatro na Liga dos Campeões.

A camisa 9 é um número. O centro do ataque é uma função.

Esse é o início de temporada mais goleador de um brasileiro nas principais divisões de Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha, França e Portugal desde Jardel pelo Sporting, em 2001/02. Jardel fez 21 gols nos 13 primeiros jogos. Entre ele e Raphinha, a melhor marca era de Adriano: 13 pela Inter de Milão em 2004/05. Neymar, para colocar a dimensão do feito em perspectiva, marcou 11 nesse mesmo recorte em três temporadas diferentes.

Não é uma boa fase qualquer. É uma mudança de patamar.

Em 5 de novembro, Raphinha liderava a Chuteira de Ouro europeia, com 30 pontos pelos 15 gols em La Liga. Kylian Mbappé vinha atrás, com 24 pontos e 12 gols. Dois dias antes, o brasileiro havia marcado aos 52 e aos 64 minutos na vitória por 3 a 0 sobre o Aston Villa, no Spotify Camp Nou. Foi eleito pela UEFA o melhor jogador da partida.

O segundo gol ainda o levou a 94 pelo Barcelona, igualando Ronaldinho. Na mesma caminhada, chegou a 190 partidas oficiais e empatou com Adriano Correia como o quarto brasileiro que mais vestiu a camisa do clube.

Raphinha é retratado como um canivete suíço entre Flick, Ancelotti e uma máquina que tenta colocá-lo na ponta.

O melhor argumento pelo centroavante

O lado contrário tem um ponto legítimo. Um 9 convencional oferece referência entre os zagueiros, ocupa a área e pode abrir corredores para Vinicius Júnior, Raphinha e os demais atacantes. Em jogos mais travados, contra defesas recuadas, essa presença ajuda a dar endereço aos cruzamentos e impede que a equipe fique circulando a bola como quem procura vaga em estacionamento de shopping.

Além disso, Ancelotti convocou Endrick para os amistosos contra Japão, em 14 de novembro, e Singapura, no dia 17. A lista ofensiva também conta com Alisson Santana, Allan, Estêvão, Rayan, Vinicius Júnior e o próprio Raphinha. Há alternativas. Seria tentador distribuir cada jogador em uma caixinha conhecida e montar o ataque conforme o manual: ponta de um lado, ponta do outro, centroavante no meio.

Mas esse argumento tropeça justamente naquilo que deveria orientar qualquer seleção: o futebol produzido agora.

Organizar o Brasil pela etiqueta da posição seria punir Raphinha por jogar bem demais.

Flick não centralizou Raphinha por capricho. A mudança aproximou do gol um atacante que sabe aparecer, e não apenas esperar. Em vez de servir como poste para a jogada, ele se movimenta, ataca o espaço e obriga a defesa a tomar decisões. Quem o acompanha? Quem protege a área? Quem sai para encurtar? Essa dúvida vale mais do que a confortável previsibilidade de um centroavante plantado entre os zagueiros.

Recolocá-lo na ponta apenas para acomodar um 9 seria como guardar um canivete suíço e insistir em abrir a garrafa com os dentes. Pode funcionar. Mas denuncia um problema de planejamento — e provavelmente termina em dor.

Ancelotti já viu o caminho

O mais importante é que Carlo Ancelotti já fez o teste. Contra a Austrália, em 29 de setembro, escalou Raphinha como centroavante no 4-3-3, com Rayan pela direita e Vinicius Júnior pela esquerda. Capitão, Raphinha marcou de pênalti aos 45 minutos do primeiro tempo, empatando a partida em 2 a 2. O Brasil venceu por 4 a 2 em Brisbane.

A experiência foi interrompida no intervalo porque ele sentiu a coxa direita. No dia seguinte, um exame apontou pequeno edema muscular na região posterior. Não houve, portanto, tempo suficiente para transformar a ideia em mecanismo coletivo. Agora, novamente convocado, ele não deve voltar ao centro como novidade exótica de amistoso. Deve voltar como eixo.

O experimento acabou quando os gols viraram rotina.

A renovação com o Barcelona até 30 de junho de 2030, anunciada em 5 de novembro, também ajuda a revelar a dimensão assumida pelo jogador. Na cerimônia, Raphinha resumiu a própria transformação: “Mudei de posição e estou tentando fazer o melhor para todos. Tento me adaptar ao que me pedem. Estou gostando”.

Imagino que esteja mesmo. Desde que chegou ao clube, em 2022/23, conquistou três edições de La Liga, uma Copa do Rei e três Supercopas da Espanha. Agora lidera o ataque do time que aparecia na ponta do campeonato espanhol, com 30 pontos em 11 jogos, antes do confronto direto com o Atlético de Madrid.

A Seleção não tem de copiar o Barcelona inteiro. Tem de copiar a melhor decisão de Flick: construir o ataque ao redor da versão mais devastadora de Raphinha.

A camisa 9 pode até ficar vazia. O centro do ataque já tem dono.

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