R$ 12,6 milhões entraram. O elenco espera — e o Santos precisa abrir o caixa
Com dois meses de imagem atrasados e sem prazo para pagar, o Santos precisa explicar o destino dos R$ 12,6 milhões e apresentar seu plano de caixa.
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O apito final confirma o 2 a 1 do RB Bragantino, e o Santos sai de campo com uma derrota que incomoda mais pelo momento do que pela matemática. O time ainda está vivo na corrida pela Libertadores, mas já não há espaço para desperdiçar pontos — nem credibilidade. Enquanto o placar se fecha dentro das quatro linhas, outro relógio continua correndo longe das câmeras: o dos dois meses de direitos de imagem devidos ao elenco.
Em 5 de novembro, o clube não tinha previsão para quitar as parcelas. Seis dias antes, em 30 de outubro, a meta interna ainda era resolver a pendência até 9 de novembro. O prazo desapareceu do discurso com uma rapidez que qualquer ponta gostaria de ter em campo.
E justamente em 9 de novembro, segunda-feira e quinto dia útil do mês, vence o salário registrado em carteira. Se não houver pagamento, uma nova obrigação poderá se juntar às antigas. O intervalo até o próximo jogo, contra o Coritiba, em 18 de novembro, no Couto Pereira, deveria servir para ajustar o time. A diretoria, porém, tem uma tarefa ainda mais básica: ajustar o calendário financeiro à realidade.

Caixa apertado explica escolhas. Não absolve silêncio.
A melhor defesa possível da diretoria
É justo montar o argumento do outro lado sem caricatura. O Santos recebeu aproximadamente R$ 12,6 milhões do Sharjah, em 19 de outubro, pela parcela fixa da venda de JP Chermont. O negócio foi fechado por US$ 2,5 milhões à vista — R$ 12,9 milhões na cotação utilizada na negociação —, além de US$ 1 milhão condicionado ao cumprimento de metas.
Parece muito dinheiro. Para a vida normal, é uma fortuna. Para o caixa de um clube com compromissos acumulados, pode ser apenas um balde diante de um incêndio.
Até junho, a folha mensal de direitos de imagem do elenco custava cerca de R$ 15,1 milhões. Portanto, os R$ 12,6 milhões efetivamente transferidos pelo Sharjah não pagariam sequer uma parcela completa. A diretoria optou por usar o recurso em despesas operacionais classificadas como mais urgentes. Em tese, isso é gestão de crise: escolher qual conta não pode esperar quando todas batem à porta ao mesmo tempo.
Também seria desonesto fingir que o problema financeiro santista cabe numa única venda. Em julho, o clube reconheceu uma dívida de R$ 90,5 milhões com a NR Sports, empresa da família de Neymar, mantendo o CT Meninos da Vila como garantia do acordo. Depois, o pagamento foi repactuado em até 80 meses. É o retrato de uma estrutura pressionada por compromissos grandes, antigos e difíceis de acomodar.
Nesse cenário, a administração poderia alegar que gastar quase todo o dinheiro de Chermont para pagar apenas parte de uma folha de imagem seria trocar uma urgência por outra. Poderia dizer também que certas despesas operacionais, se ignoradas, comprometem o funcionamento cotidiano do clube. E poderia defender que a classificação à Libertadores de 2027 abriria novas possibilidades de receita.
É uma defesa coerente. É, inclusive, a melhor defesa disponível.
Mas não basta.
Onde o argumento desmorona
O problema não está apenas na escolha de caixa. Está na falta de explicação sobre a escolha. “Despesas mais urgentes” é uma classificação ampla demais para quem acabou de receber R$ 12,6 milhões e continua devendo ao elenco. Quais despesas? Quanto foi destinado a cada grupo de obrigações? Que receita sustentará o pagamento dos direitos de imagem? Em qual data?
Não se exige que o Santos publique cada detalhe comercial ou exponha credores indevidamente. Exige-se algo muito menos espetaculoso e muito mais sério: um plano. Categorias de gastos, fluxo previsto, ordem de prioridade e um dia definitivo para a quitação.
A gestão de Marcelo Teixeira não pode transformar a tesouraria numa gaveta de cozinha, aquela em que entram pilhas, recibos, parafusos e uma chave que ninguém sabe de qual porta é. Quando o dinheiro chega, some sob a etiqueta das urgências. Quando o pagamento é cobrado, falta previsão.
Transparência sem número e sem data é apenas um discurso de terno.
Há ainda um ponto que derruba a tese do “acidente de percurso”: a repetição. Em 14 de maio, o Santos já devia dois meses de imagem. Lucas Veríssimo disse, com a sobriedade de quem não precisava criar crise, que aquilo “não deveria acontecer”. Em 21 de julho, o clube pagou somente um dos meses então atrasados e informou que apresentaria posteriormente uma data para a parcela restante.
Agora, em novembro, são novamente dois meses pendentes. A promessa de resolver até o dia 9 virou ausência de prazo em menos de uma semana. Isso não é uma curva inesperada na estrada. É o caminho escolhido — ou, no mínimo, tolerado — pela administração.
Direitos de imagem fazem parte da remuneração acertada com os jogadores. Tratar a parcela como conta flexível, empurrável ou subordinada a toda nova urgência significa usar o elenco como financiador involuntário do clube. O atleta continua treinando, viajando, jogando e sendo cobrado por resultado enquanto uma parte do combinado fica para depois.
Jogador não é banco, e vestiário não é linha de crédito.
O Santos ocupa a nona posição do Brasileirão, com 47 pontos em 34 partidas, e tem chance real de buscar uma vaga na Libertadores. Nas últimas cinco rodadas, venceu o Fluminense por 2 a 1, empatou com Bahia e Palmeiras e perdeu para Atlético-MG e Bragantino, somando cinco pontos em 15 possíveis. A disputa está aberta, mas o desempenho recente não autoriza ninguém a tratar a classificação continental como dinheiro já depositado.
A Libertadores pode ampliar receitas, valorizar atletas e devolver ao clube um palco compatível com sua história. Ótimo. O que ela não pode fazer é funcionar como desculpa antecipada para a falta de caixa presente. Pendurar a taça diante dos jogadores enquanto eles pedalam para manter a máquina ligada seria como oferecer sobremesa a quem está pagando a conta do jantar.

Em maio, ao anunciar sua primeira entrega ao sistema de fair play financeiro da CBF, o próprio Santos afirmou que “sustentabilidade, responsabilidade e transparência” deveriam caminhar com a competitividade esportiva. A frase era correta. Agora precisa sair do comunicado e entrar na planilha.
Marcelo Teixeira deve apresentar uma data definitiva para pagar os dois meses de imagem e explicar, com precisão suficiente, o destino dos R$ 12,6 milhões recebidos. Se o recurso salvou outras áreas do clube, que se mostre quais foram as prioridades e como o elenco será pago. A torcida é capaz de compreender aperto financeiro. O que ela não deve aceitar é a neblina permanente.
O maior erro seria vender a Libertadores como boia de salvação enquanto os jogadores mantêm o clube à tona com dinheiro que deveriam ter recebido.
Antes de pedir que o time alcance a América, o Santos precisa parar de cobrar pedágio de quem o leva até lá.
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