Abel mirou Scaloni, mas o culpado é a CBF: convocação não remenda calendário

Abel acertou ao cobrar isonomia, mas errou o alvo: cabe à CBF remarcar a 35ª rodada, não pedir que seleções estrangeiras protejam o Brasileirão.

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Abel mira um alvo com o nome de Scaloni enquanto um dirigente da CBF corta um calendário gigante.

Abel acertou a denúncia, não o endereço.

Depois de o Palmeiras atropelar o Remo por 6 a 1 no Nubank Parque e chegar a 73 pontos, o treinador voltou ao tema que ronda a reta final do Brasileirão: a Data Fifa. Fez bem. Há um risco evidente de desequilíbrio na disputa pelo título. Mas, ao mirar Lionel Scaloni e reclamar da possível utilização de jogadores palmeirenses pela Argentina, Abel Ferreira cobrou a solução de quem não criou o problema.

Convocação não é remendo para calendário malfeito.

A tabela já coloca o Palmeiras em situação delicada. O Flamengo, vencedor do Grêmio por 3 a 1 no Maracanã, lidera com 76 pontos após 34 partidas. Tem também 23 vitórias, contra 21 do rival — e esse é o primeiro critério de desempate. O modelo do Gato Mestre publicado em 6 de novembro dá 86,62% de chance de título ao time carioca e 13,38% ao paulista. Ou seja: para o Palmeiras, qualquer detalhe pesa como uma chuteira molhada.

A preocupação de Abel, portanto, é legítima. O erro está na cobrança. “Eu particularmente não gostei de ouvir dizer que não vão convocar jogadores do Palmeiras quando antes já não havia convocados”, afirmou depois da goleada. A frase expõe uma contradição real: a CBF anunciou uma Seleção condicionada pela corrida do Brasileirão, mas não consegue impor a mesma lógica às federações estrangeiras. Só que Argentina, Uruguai e Colômbia não assinaram o regulamento do campeonato brasileiro. Não têm obrigação de proteger sua tabela, muito menos de ajudar a corrigir uma trapalhada alheia.

A CBF decidiu não convocar atletas de Flamengo e Palmeiras para os amistosos contra Japão e Singapura. Rodrigo Caetano explicou o critério: “Tivemos como critério convocar até um jogador de cada clube do futebol brasileiro, com exceção dos dois clubes postulantes ao título”. Ainda assim, Jonathan Jesus, do Cruzeiro, e Arthur Dias, do Athletico-PR, foram chamados — justamente jogadores dos adversários de Palmeiras e Flamengo na 35ª rodada.

É uma tentativa de costurar um calendário rasgado usando a lista de convocados como linha. O resultado lembra aquele alfaiate que, sem saber salvar a calça, encurta as duas pernas e chama de tendência.

Representante da CBF costura um calendário rasgado com uma lista de convocados enquanto jogadores embarcam em aviões.

Enquanto a Seleção brasileira faz malabarismo, as outras seguem seus critérios. A Argentina chamou Agustín Giay e Flaco López, titulares do Palmeiras, para enfrentar Uruguai e Costa Rica. O último amistoso será em Córdoba, em 17 de novembro. No dia seguinte, o Palmeiras encara o Cruzeiro em Belo Horizonte, às 20h30. Scaloni deve abrir mão de quem considera necessário porque a CBF marcou uma rodada espremida? Evidentemente, não.

O Uruguai convocou Joaquín Piquerez, do Palmeiras, além de Arrascaeta, Nicolás de la Cruz e Guillermo Varela, do Flamengo. A Colômbia chamou Jhon Arias para jogos em Cali e Santiago. Assim, o Palmeiras tem quatro estrangeiros convocados, contra três do Flamengo. Há um desequilíbrio potencial, sim. Mas ele não nasceu em Buenos Aires, Montevidéu ou Bogotá.

Seleção estrangeira não é departamento de logística da CBF.

O Flamengo conseguiu alinhar com a comissão uruguaia a liberação antecipada de Arrascaeta e Varela depois do jogo de 13 de novembro; o acordo noticiado não inclui De la Cruz. O Palmeiras também iniciou conversas para antecipar retornos, reconhecendo que as seleções não são obrigadas a liberar ninguém. É o caminho possível para os clubes, mas não pode ser a política oficial do campeonato: telefonemas, favores e acordos particulares não garantem isonomia.

O absurdo original está nas datas. Brasil e Japão jogam em 14 de novembro, às 7h15 de Brasília; Brasil e Singapura, no dia 17, às 7h. Cruzeiro x Palmeiras e Flamengo x Athletico-PR foram marcados para 18 de novembro, ambos às 20h30. Um único dia separa o fim da Data Fifa de uma rodada decisiva. Depois, em 21 de novembro, Palmeiras e Flamengo fazem o confronto direto no Nubank Parque. E o time de Abel ainda disputará a final da Libertadores contra o Estudiantes em 28 de novembro, no Centenário.

Não existe engenharia de convocação capaz de tornar essa sequência razoável. A resposta correta é reprogramar os dois jogos da 35ª rodada, garantindo uma janela real para retorno e recuperação. Se a alteração afetar o intervalo até o confronto direto, muda-se também Palmeiras x Flamengo. Dá trabalho? Claro. Organizar campeonato dá trabalho. Muito mais cômodo é transformar Carlo Ancelotti em gerente de tabela e esperar que Scaloni, o Uruguai e a Colômbia colaborem com a gambiarra.

Abel tem razão ao exigir igualdade, mas não pode terceirizar a culpa. Scaloni cuida da Argentina. As demais federações cuidam de suas seleções. Quem deve preservar a credibilidade do Brasileirão é a entidade que marcou a rodada para o dia seguinte ao encerramento da Data Fifa.

Quem rasgou o calendário não pode culpar a convocação.

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