Não foi choro: o VAR deve uma explicação ao Vasco
Barboza cortou a bola com o braço, Daronco mandou seguir e o VAR se omitiu. Antes da volta, a CBF precisa divulgar o áudio e explicar a decisão.
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Você já ouviu o veredito preguiçoso: perdeu, reclamou, logo é choro. É uma maneira confortável de encerrar a conversa sem olhar para o lance. Só que, desta vez, não cola. O Vasco pode ter começado mal, pode ter se complicado sozinho e pode até sair desta semifinal por seus próprios defeitos. Nada disso transforma braço em ombro nem torna aceitável o silêncio de quem tinha as imagens à disposição.
O personagem central da noite nem sequer pisou no gramado do Nubank Parque. Rodrigo D’Alonso Ferreira, de Santa Catarina, comandava o VAR na vitória do Palmeiras por 1 a 0. Anderson Daronco viu a jogada em velocidade normal e decidiu. Rodrigo viu de novo, por diferentes ângulos, e decidiu não recomendar a revisão. O primeiro erro foi humano. O segundo teve replay.
O apito errou no gramado; a cabine transformou o erro em decisão.
Aos quatro minutos do segundo tempo, com o Vasco perdendo por 1 a 0, Lescano disputou a bola com Alexander Barboza dentro da área. O braço do zagueiro palmeirense desviou a trajetória. Não é necessário montar uma tese de doutorado, consultar a curvatura da Terra ou chamar um perito em aerodinâmica: o braço cortou o caminho da bola. PC Oliveira, comentarista de arbitragem do Grupo Globo, chegou à mesma conclusão e apontou o pênalti.
Daronco afirmou aos jogadores que viu o lance e não considerou infração. Está aí uma decisão ruim, mas ao menos assumida. O problema maior mora atrás dos monitores. Se o árbitro de campo interpreta mal uma jogada decisiva, para que serve a equipe de vídeo? VAR que assiste ao erro e permanece quieto é como extintor de incêndio usado de peso de porta: está no lugar certo, custa caro e falha justamente quando alguém precisa dele.

Admar Lopes exagerou no veneno, não no diagnóstico. O diretor de futebol do Vasco classificou a atuação como “completamente vergonhosa” e afirmou que um erro grotesco pode ter decidido um dos finalistas. Também acusou a equipe de vídeo de omissão e disse que seus integrantes “vieram para passar o fim de semana em São Paulo”. A frase tem raiva de arquibancada, claro. Mas a pergunta que ela carrega é absolutamente legítima: o que Rodrigo D’Alonso Ferreira e sua equipe viram para sustentar a decisão de campo?
Chamar toda reclamação de choro é o jeito mais fácil de proteger uma arbitragem indefensável.
Há uma tentativa previsível de desviar o debate para os pecados vascaínos. Pedro Emanuel reconheceu que o time “recusou a responsabilidade do jogo” nos primeiros 30 minutos. E recusou mesmo. Maurício marcou aos 23, depois da jogada de Jhon Arias e do passe de Marlon Freitas, premiando um Palmeiras mais confortável diante de 40.570 pessoas. O Vasco demorou a entrar na semifinal e pagou por isso.
Depois, Saldivia recebeu o segundo amarelo aos 32 minutos do segundo tempo ao derrubar Vitor Roque em um contra-ataque. Pedro Emanuel atribuiu a expulsão à inexperiência do jogador e disse que o lance “nos custou caro”. Também correto. Com um a mais na reta final, porém, o Palmeiras não ampliou. Tudo isso pertence à análise da partida. Nada disso absolve o VAR.
Futebol não funciona por compensação moral. Um time não perde o direito a um pênalti porque entrou desligado, tomou gol ou teve um jogador expulso mais tarde. A decisão sobre o braço de Barboza aconteceu quando o placar ainda era 1 a 0. Se marcada, daria ao Vasco a oportunidade de empatar. Não há garantia de gol, evidentemente, mas havia ali um lance capaz de alterar a semifinal. Apagar isso com os erros posteriores do time carioca é misturar relógios para fabricar uma desculpa.
Abel Ferreira preferiu não avaliar diretamente o possível pênalti e disse que fará esforço para não voltar a falar sobre arbitragem. É um direito dele. A obrigação de responder não é do treinador do Palmeiras, nem de Barboza, nem de Daronco sozinho. É da CBF. A entidade precisa divulgar o áudio completo da checagem e explicar por que o árbitro não foi chamado ao monitor.

E precisa fazê-lo antes de 8 de novembro, às 17h, quando São Januário receberá a volta. O Palmeiras avança com qualquer empate. O Vasco necessita vencer por dois gols para se classificar diretamente; triunfo por um leva a disputa aos pênaltis. Não dá para permitir que um confronto desse tamanho prossiga sob uma névoa produzida pela própria arbitragem.
Transparência depois da volta não é transparência. É perícia tardia.
Rodrigo D’Alonso Ferreira tornou-se o rosto invisível do lance porque tinha a ferramenta, as imagens e a chance de corrigir Daronco. Não corrigiu. Agora, a cabine precisa abrir o microfone. Antes de São Januário decidir a semifinal, a CBF deve explicar por que o VAR viu tudo — e não fez nada.
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