Duas versões sobre Daronco: a CBF precisa abrir o áudio do VAR
A CBF diz que Daronco acertou, mas nega o afastamento relatado após reunião com Vasco e Ferj. Sem publicar o áudio completo do VAR, a crise só aumenta.
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A CBF precisa publicar o áudio completo do VAR e esclarecer, sem malabarismo semântico, o que foi dito a Vasco e Ferj sobre Anderson Daronco e Rodrigo D’Alonso Ferreira. O lance já era controverso; a condução posterior da entidade conseguiu ser pior.
Tudo começou na vitória do Palmeiras por 1 a 0 sobre o Vasco, em 1º de novembro, na ida da semifinal da Copa do Brasil. Aos três minutos do segundo tempo, a bola tocou no braço de Alexander Barboza durante uma disputa com Alan Lescano dentro da área palmeirense. Daronco mandou o jogo seguir. D’Alonso, responsável pelo VAR, não recomendou revisão no monitor.
Pode-se discutir o lance até o café esfriar. A comissão de arbitragem da CBF considera correta a decisão porque entendeu que Barboza estava em uma ação de disputa pela bola e mantinha o braço relativamente baixo. É uma interpretação possível dentro do emaranhado de critérios que transformou cada toque de mão em uma pequena assembleia de condomínio. Há árbitros, jogadores e torcedores olhando para a mesma imagem e enxergando esportes diferentes.
Mas o problema deixou de ser apenas se houve ou não pênalti. O problema agora é saber por que a CBF, tão segura de que sua equipe acertou, prefere manter escondida justamente a conversa capaz de mostrar como a decisão foi construída.
Transparência não pode depender de o árbitro caminhar até uma televisão.
A política da entidade exclui da divulgação os áudios dos lances em que não há recomendação de revisão no monitor. Eis uma regra especialmente conveniente para crises como esta: quanto mais decisiva for a decisão silenciosa do VAR, menor a chance de o público conhecer sua justificativa. É como instalar uma câmera no caixa e anunciar que a gravação só será mostrada se o gerente resolver conferir a nota.
Se D’Alonso avaliou corretamente que não havia erro claro, ótimo. Publique-se a conversa. Se houve checagem cuidadosa do braço, da posição e da dinâmica da disputa, melhor ainda. O áudio fortaleceria a versão da própria comissão de arbitragem. Guardá-lo no cofre, ao contrário, não protege o árbitro; alimenta a suspeita de que existe algo incômodo na comunicação — mesmo que não exista.

A situação ficou ainda mais atravessada depois da reunião de 3 de novembro, na sede da CBF. Representantes do Vasco e da Ferj passaram mais de cinco horas ouvindo todos os áudios do VAR. Segundo informou o ge, a entidade comunicou aos dois lados que Daronco e D’Alonso ficariam fora das próximas escalas da Série A e da Copa do Brasil. No dia seguinte, a CBF negou ter feito essa comunicação.
Cinco horas de reunião não são uma conversa apressada no corredor. Não é razoável tratar uma divergência desse tamanho como se alguém tivesse confundido “bom dia” com “suspensão”. Ou a informação foi dada, ou não foi. Se houve ruído, cabe à CBF explicar onde ele nasceu, quem usou quais palavras e por que Vasco e Ferj saíram com um entendimento que a entidade depois desmentiu.
Quando uma reunião de cinco horas produz duas verdades, a arbitragem já perdeu antes do próximo apito.
A nota da CBF acrescentou que os dois profissionais continuam disponíveis para futuras escalas nacionais, inclusive na Série A. A entidade também afirmou que Daronco apitará Avaí x São Bernardo, pela 37ª rodada da Série B, enquanto D’Alonso trabalhará em Al-Ain x Al-Wahda, na Arábia Saudita. Ou seja: não apenas negou o afastamento como apresentou compromissos dos dois.
Isso torna a contradição mais grave, não menos. Se a decisão de campo foi correta e ambos seguem normalmente disponíveis, o que exatamente foi discutido durante tantas horas? Por que surgiu um relato tão específico sobre ausência nas próximas escalas de duas competições? Desmentir os interlocutores sem abrir a conversa é pedir que o público escolha em quem acreditar no escuro.
Admar Lopes, diretor de futebol do Vasco, chamou a arbitragem de “completamente vergonhosa” e afirmou que os erros podem ter decidido um dos finalistas. Sua revolta é compreensível, sobretudo porque o Palmeiras levará a vantagem de 1 a 0 para a volta, em 8 de novembro, às 17h, em São Januário. Em uma semifinal apertada, um lance aos três minutos da etapa final não desaparece quando o ônibus deixa o estádio. Ele viaja com a eliminatória.
A expulsão de Alan Saldivia aos 31 minutos do segundo tempo, após o segundo amarelo por falta em Vitor Roque durante contra-ataque palmeirense, também mostra que não faltaram decisões relevantes naquela noite. Ainda assim, é o possível pênalti que ficou preso à partida porque dele nasceram o silêncio do VAR, a reunião prolongada e o desmentido posterior.
Não se trata de atender à pressão do Vasco nem de fabricar culpa para favorecer o Palmeiras. Trata-se de proteger a credibilidade da competição. A CBF tem o direito de sustentar que Daronco acertou. Não tem o direito de exigir confiança cega enquanto esconde o principal documento do caso e deixa no ar duas versões incompatíveis sobre seus árbitros.
O áudio pode absolver Daronco; o silêncio já condenou a gestão da CBF.
Abrir a gravação completa e explicar a reunião não mudará o placar, nem deveria. Mas impediria que uma semifinal da Copa do Brasil fosse administrada como uma brincadeira de telefone sem fio entre salas acarpetadas. A bola tocou no braço de Barboza; a crise, esta sim, saiu diretamente das mãos da CBF.
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