A ida foi método; a volta foi medo: Carlos Miguel salvou Abel da própria cautela

A vaga na final não absolve o plano: passivo, o Palmeiras devolveu a vantagem ao Fluminense e precisou de Carlos Miguel para resgatar Abel.

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Abel protege uma redoma com o placar de 2 a 1, enquanto Carlos Miguel segura a vaga na final com uma luva gigante.

Você pode comemorar a classificação — e deve. O Palmeiras está na final da Libertadores. Mas não venha usar o 5 a 3 nos pênaltis como borracha para apagar os 90 minutos. A derrota por 1 a 0 para o Fluminense, no Nubank Parque, devolveu uma vantagem construída com autoridade no Maracanã e deixou o agregado em 2 a 2. A vaga veio. O plano, não.

Classificação é veredito; atuação é diagnóstico. Confundir os dois costuma custar taça.

Comecemos a autópsia pelo estrago. Aos 36 minutos do segundo tempo, Wesley Natã — lançado apenas três minutos antes — tabelou com Hulk e encontrou Hércules livre na entrada da área. Finalização de primeira, gol. O Fluminense não precisou desmontar um cofre: encontrou a porta encostada.

Antes disso, o Palmeiras já havia oferecido o sinal mais incômodo da noite: 12 finalizações, somente uma no alvo de Fábio. Não faltou chute; faltou ataque de verdade. O time tratou o 2 a 1 da ida como peça de museu: ninguém toca, ninguém respira perto, todo mundo vigia até a poeira.

Quem entra em campo para proteger uma vantagem mínima acaba protegendo o adversário do próprio perigo.

A ausência de Vitor Roque, fora por uma torção no tornozelo direito, ajuda a explicar a perda de agressividade. Não serve para absolver a escolha. Abel Ferreira montou o time com três zagueiros, Giay e Piquerez pelos lados, Lucas Evangelista, Marlon Freitas e Andreas Pereira por dentro, além de Jhon Arias e Flaco López. Havia gente suficiente para jogar. Faltou autorização emocional para fazê-lo.

O próprio Abel entregou a pista ao admitir a oscilação entre “o medo de perder a vantagem” e a ousadia de aumentá-la. Durante o jogo, escreveu na mão “atacarmos em U” e depois reclamou que Lucas Evangelista e Marlon Freitas devolviam a bola para trás. A prancheta virou um GPS recalculando rota dentro da garagem.

Carlos Miguel usa um extintor sobre uma prancheta de Abel com setas em formato de U e fósforos acesos.

As substituições reforçaram o retrato. Ramón Sosa entrou no lugar de Flaco López aos 16 minutos do segundo tempo. Mauricio só foi chamado depois do gol. Paulinho e Khellven, aos 41. Quando Abel decidiu mexer com urgência, a urgência já estava sentada no sofá havia algum tempo.

O verdadeiro culpado não foi o gol de Hércules. Foi a ideia de que um gol de vantagem poderia jogar sozinho.

Carlos Miguel impediu que a cautela virasse eliminação. Mauricio, Gustavo Gómez, Ramón Sosa, Piquerez e Marlon Freitas converteram suas cobranças; o goleiro consultou a anotação na toalha e defendeu o pênalti de Nonato. Depois, guardou o segredo: “Sobre a minha estratégia, não conto para ninguém”. Justo. Já bastou revelar que o Palmeiras tem um especialista em apagar incêndio.

Ele também havia defendido dois pênaltis contra a LDU. As três defesas nas duas fases levaram o Palmeiras à decisão e ajudaram a virar uma relação quase amaldiçoada: sob Abel, o clube venceu apenas três de dez disputas, mas agora ganhou duas consecutivas nesta Libertadores.

A quarta final continental do Palmeiras nas últimas sete edições sob o treinador é um feito enorme. Justamente por isso, exige honestidade: Carlos Miguel salvou a vaga e salvou Abel da própria cautela.

No dia 28 de novembro, no Centenário, repetir tamanha passividade será entregar um extintor ao goleiro e continuar brincando com fósforos.

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