Abel virou o próprio desfalque: a expulsão que pode custar caro no Maracanã

Suspenso por perder a cabeça em Quito, Abel dará ao Fluminense uma vantagem preciosa: enfrentar o Palmeiras sem sua principal voz no banco.

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Abel acende um pavio ligado ao banco vazio do Palmeiras, enquanto seus auxiliares carregam extintores.

Como é que um técnico tão obcecado por controle consegue se tirar justamente do jogo em que o controle vale ouro? O torcedor do Palmeiras já fez essa pergunta no bar — provavelmente com menos delicadeza — porque Abel Ferreira não estará no banco do Maracanã em 14 de outubro, às 21h30, na ida da semifinal da Libertadores contra o Fluminense. Não é azar, perseguição cósmica nem detalhe burocrático. É um erro de comando cometido pelo próprio comandante.

Na semifinal, autocontrole também é esquema tático.

A cena que explica a suspensão aconteceu em Quito. Aos 20 minutos do segundo tempo da derrota por 3 a 2 para a LDU, Abel protestou contra Wilmar Roldán pela não marcação de uma falta em Andreas Pereira e foi expulso. A reclamação podia até ter mérito. A explosão, não. Treinador experiente precisa saber que o árbitro raramente consulta o VAR da própria paciência depois de um berro.

O lance terminou ali; a consequência atravessou o calendário.

Naquela noite, o Palmeiras entrou em campo protegido pelo 1 a 0 do primeiro jogo e chegou a abrir 2 a 1 no Equador. Parecia encaminhado. Então sofreu gols aos 44 e 47 minutos do segundo tempo, perdeu por 3 a 2 e viu o agregado terminar em 3 a 3. A classificação veio nos pênaltis, por 4 a 2, com Carlos Miguel defendendo duas cobranças.

Foi uma sobrevivência, não uma absolvição. Vitor Castanheira reconheceu depois que o time “não precisava sofrer tanto”. Perfeito. Também não precisava atravessar uma disputa de pênaltis, nem transformar os minutos finais num filme de catástrofe, muito menos perder Abel para a partida seguinte. A comissão técnica apagou o incêndio, mas isso não muda a origem da fumaça.

Sobreviver ao caos não inocenta quem acendeu o fósforo.

João Martins e Vitor Castanheira são os auxiliares previstos para comandar o Palmeiras à beira do campo contra o Fluminense. Conhecem o elenco, participam do trabalho e já mostraram capacidade para assumir quando a emergência bate à porta. O problema é tratar essa familiaridade como se ela anulasse a ausência. Não anula. Em uma semifinal no Maracanã, com o jogo mudando de temperatura a cada disputa, a principal voz do projeto faz diferença — especialmente na leitura imediata, na cobrança e na tomada de decisões sob pressão.

Abel entrega ao Fluminense uma caixa escrita sem treinador no banco, diante dos auxiliares do Palmeiras.

Abel deu ao Fluminense uma vantagem que nenhum quadro tático seria capaz de fabricar. Foi como chegar à casa do adversário com a sobremesa, entregar um presente embrulhado e ainda perguntar onde pode deixar o laço. O Tricolor não precisou provocar a suspensão, montar armadilha emocional ou vencer qualquer batalha de bastidor. Bastou receber a gentileza.

E não se trata de um Palmeiras em crise que busca uma desculpa pronta. Três dias antes da semifinal, o time goleou o Corinthians por 4 a 1, chegou a 63 pontos no Brasileirão e ficou um atrás do Flamengo. Alexander Barboza, Agustín Giay, duas vezes, e Matheus Bidu, contra, marcaram no Dérbi. A equipe chega forte, confiante e com futebol suficiente para competir mesmo sem Abel no banco.

Há ainda a incerteza envolvendo Ramón Sosa, que atuou apenas oito minutos no Dérbi antes de sofrer um trauma na coxa direita. Até 12 de outubro, o Palmeiras não havia informado prazo de recuperação. Esse, sim, é o tipo de problema que cabe na conta do imprevisto. Lesão acontece. Suspensão por perder a cabeça diante de uma falta não marcada é outra conversa.

Do lado tricolor, a derrota por 1 a 0 para o Flamengo, com formação mista, não deveria enganar ninguém. O Fluminense permaneceu em terceiro no Brasileiro, com 51 pontos, e já mostrou neste ano que sabe ferir o Palmeiras no Maracanã. Em 15 de agosto, sob o comando de Marcão, venceu por 3 a 2 depois de ficar atrás duas vezes. Kevin Serna empatou aos 39 minutos da etapa final, e Germán Cano virou aos 46.

Esse antecedente importa menos pelo resultado e mais pelo roteiro. Foi um jogo que se decidiu quando a ordem já começava a ceder espaço ao instinto. É justamente nesse tipo de noite que o treinador principal precisa estar a poucos metros do campo, não pagando a conta de um protesto ocorrido quase um mês antes.

O Fluminense recebeu uma vantagem que não precisou conquistar.

O Palmeiras ainda pode sair do Maracanã com um grande resultado. Tem elenco, organização e auxiliares preparados. Mas, se a partida escapar numa substituição atrasada, numa reação emocional mal contida ou na dificuldade de reorganizar o time durante o tumulto, ninguém poderá chamar de fatalidade. Abel estará liberado para a volta, em 21 de outubro, às 21h30, no Nubank Parque. Talvez encontre a eliminatória sob controle. Talvez precise consertar o estrago.

Antes disso, porém, João Martins e Vitor Castanheira terão de proteger no Maracanã aquilo que Abel colocou em risco em Quito.

O desfalque mais evitável do Palmeiras foi escalado pelo próprio treinador.

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