Quinto pênalti não é trono: Marcão guardou Hulk e expôs Nonato

Nonato perdeu a quarta cobrança, mas o erro veio antes: Marcão guardou Hulk para um quinto pênalti que nunca chegou e entregou ao volante o papel de vilão.

Publicado em

Marcão deixa Hulk em um trono de quinto cobrador enquanto encaminha Nonato para bater o quarto pênalti.

Uma. Parece estatística inventada para provocar discussão em mesa-redonda, mas é o número de pênaltis que Nonato havia cobrado em toda a carreira profissional antes de caminhar até a marca no momento mais pesado da temporada do Fluminense. Aos 28 anos, o volante recebeu a quarta cobrança de uma semifinal de Libertadores. Hulk, confiante e preparado, ficou reservado para a quinta.

Aí está o erro que decidiu a eliminação tricolor. Não foi escolher Nonato para a disputa. Foi colocá-lo antes de Hulk, transformando uma aposta em obrigação e tratando a última cobrança como se fosse um palco garantido. Não era. Nunca é.

Quinto pênalti não é trono; é uma cadeira que pode ficar vazia.

O Fluminense fez quase tudo o que precisava no Nubank Parque. Depois da derrota por 2 a 1 no Maracanã, venceu o Palmeiras por 1 a 0 em 21 de outubro, com gol de Hércules aos 36 minutos do segundo tempo, após jogada de Wesley Natã e Hulk. Igualou o agregado em 2 a 2 e levou a decisão para os pênaltis. Foi competitivo, suportou a pressão e arrancou a possibilidade de classificação onde poucos conseguiriam.

Na hora de organizar as cobranças, porém, a comissão técnica desmontou parte desse trabalho. A ordem foi Thiago Silva, Hércules, Guilherme Arana, Nonato e Hulk. Os três primeiros converteram. Quando chegou a vez do quarto, Carlos Miguel consultou uma toalha com possíveis informações sobre os cobradores e defendeu o chute de Nonato. Marlon Freitas marcou em seguida, fechou a disputa em 5 a 3 e impediu que Hulk sequer tocasse na bola.

Nonato errou a cobrança. Marcão errou a disputa.

Marcão explicou: “Ele treinou bem e estava confiante. Hulk seria o quinto.” Treinar bem é requisito, não salvo-conduto. Em uma semifinal de Libertadores, a comissão precisa organizar a fila pensando no risco real de a série acabar antes da última batida. Guardar a estrela para o quinto pênalti é como deixar o extintor trancado para ser usado depois que o prédio já virou churrasco.

Marcão guarda um martelo com o nome de Hulk e entrega um martelo pequeno a Nonato diante de Carlos Miguel.

Hulk contou que perguntou ao auxiliar Cadu sobre a ordem, ouviu que seria o quinto cobrador e afirmou que estava confiante e preparado. Depois da eliminação, resumiu: “A decisão é da comissão e a gente respeita.” Respeito não apaga responsabilidade. Se o atacante estava pronto para assumir, deveria ter cobrado antes de Nonato. No mínimo, em quarto. A bola precisava chegar aos pés de quem fora preservado justamente para suportar o peso da decisão.

Há ainda um detalhe que torna a escolha mais difícil de defender. Carlos Miguel já havia pegado duas cobranças contra a LDU nas quartas de final desta Libertadores. Não era um goleiro entrando às cegas no ritual. Tinha histórico recente, preparação e, diante de Nonato, a toalha como apoio. Do outro lado, estava um jogador cuja única experiência anterior na marca havia ocorrido em 2019, pelo Internacional, também contra o Palmeiras. Naquela ocasião, ele converteu como sexto cobrador, e o Inter avançou por 5 a 4.

A diferença é óbvia: ser o sexto depois de uma longa sequência não é o mesmo que assumir o quarto pênalti com uma estrela esperando atrás. O contexto muda o chute, o tamanho do gol e até o barulho do estádio. Nonato não foi colocado apenas diante de Carlos Miguel. Foi colocado diante da obrigação de manter Hulk vivo na disputa.

Em decisão curta, responsabilidade não se guarda: usa-se.

O próprio Marcão afirmou que Nonato foi um dos melhores jogadores do Fluminense no tempo regulamentar. Isso deveria protegê-lo da preguiça de transformá-lo no vilão conveniente. O volante jogou bem, aceitou bater e falhou. Faz parte da brutalidade dos pênaltis. O que não pode ser tratado como fatalidade é a ordem desenhada na prancheta. Essa foi deliberada.

Também não existe garantia de que Hulk converteria. Futebol não oferece recibo, muito menos em cobrança de pênalti. Mas estratégia não serve para garantir o impossível; serve para aumentar a chance de seus principais nomes participarem. Reservar um jogador decisivo para uma cobrança que talvez não aconteça é priorizar a fotografia do herói sobre a eficiência da classificação.

Enquanto o Palmeiras chegou à sua oitava final de Libertadores — a quarta nas últimas sete edições —, o Fluminense saiu com sua maior responsabilidade sentada no banco dos cobradores. A decisão será em 28 de novembro, no Estádio Centenário, em Montevidéu. Hulk poderá assistir. Nonato carregará uma culpa que não deveria ser só dele.

A quinta cobrança parecia escrita para consagrar Hulk. Marcão esqueceu de garantir que ela existisse.

Times citados nesta matéria

Compartilhar:WhatsAppX

Receba as próximas matérias

As melhores matérias do futebol brasileiro no seu e-mail, sem spam.

Ao assinar, você concorda em receber nossos e-mails. Pode cancelar quando quiser.