Ancelotti achou o meio-campo — e já ameaça escondê-lo de novo

Com Bontempo no 4-3-3 e Endrick como referência, o Brasil venceu por 4 a 2. Insistir no 4-2-4 seria ignorar a resposta dada pelo campo em Brisbane.

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Ancelotti troca três engrenagens de meio-campo por quatro bonecos de atacantes em uma prancheta tática.

Não faltam meias ao Brasil. Falta coragem para tratá-los como parte da solução. Esse papo de escassez, repetido depois da vitória por 4 a 2 sobre a Austrália, é uma cortina conveniente para esconder o verdadeiro problema: Carlo Ancelotti ainda confia mais no excesso de atacantes do que na construção de um meio-campo.

A autópsia começa pelo estrago de Townsville. Quatro dias antes, o Brasil colocou Estêvão, Raphinha, Endrick e Vini Jr. à frente de Danilo e Bruno Guimarães. A Austrália marcou com Irankunda, e Rayan só evitou a derrota aos 49 minutos do segundo tempo. Era o 4-2-4 em sua versão mais crua: muito nome para receber a bola, pouca gente para fazê-la chegar.

Em Brisbane, Ancelotti mudou. Gabriel Bontempo entrou como titular ao lado de Danilo e Bruno Guimarães no 4-3-3. Aos dois minutos, o garoto do Santos participou da combinação com Rayan que terminou no gol de Vanderson — o primeiro do lateral em oito partidas pela Seleção.

O Brasil não está sem meias; está sem paciência para deixá-los jogar.

A diferença teve nome: organização. Bontempo estreou na equipe principal sem parecer um intruso na festa. Foi um dos destaques brasileiros no primeiro tempo, apareceu na construção e deu ao setor uma terceira opção real. Circati e Metcalfe viraram o jogo entre os 29 e os 33 minutos, numa sequência que deixou claro que o 4-3-3 não vem com antivírus instalado.

Raphinha empatou de pênalti antes do intervalo e saiu com desconforto na coxa direita. Endrick entrou, atuou como referência e participou da virada: recebeu de Vini Jr. e serviu Bruno Guimarães dentro da área. Depois, Vini fechou o placar, também de pênalti. A primeira vitória brasileira desde a Copa do Mundo nasceu com três meio-campistas e ganhou impulso quando o centroavante aproximou os setores.

Ancelotti aponta para pontes representando o 4-3-3 equilibrado e o 4-2-4 apoiado em dois pilares.

Atacante empilhado não vira armador por osmose.

O culpado está à mesa: Ancelotti. Após o jogo, o treinador disse que o país “não tem muita produção de jovens meio-campistas”, embora tenha citado Bontempo e Breno Bidon como nomes a observar. Mais estranho ainda: prometeu manter tanto o sistema com três no meio quanto o quarteto ofensivo — “vamos seguir as duas linhas”.

É como reclamar que não há comida enquanto se segura o cardápio de cabeça para baixo. Bontempo respondeu em campo na primeira oportunidade como titular. Bidon, nascido em 2005, soma 30 partidas em competições nacionais de 2026 pelo Corinthians. Essa suposta carência não absolve ninguém: a obrigação da Seleção é desenvolver alternativas, não camuflá-la colocando mais um ponta e torcendo para Bruno Guimarães virar três jogadores.

Bontempo e Breno Bidon são representados como plantas em uma estufa enquanto Ancelotti observa uma prateleira vazia.

O maior erro agora seria tratar o 4-3-3 como experiência ocasional e o 4-2-4 como tentação permanente. O teste contra a Índia, em 3 de outubro, precisa servir para dar sequência a Bontempo e abrir espaço a outras opções do setor. Esconder o meio-campo não produz meias; produz dependência, distância entre linhas e um time com o equilíbrio de um garçom carregando seis pratos numa bicicleta.

Meia não se encontra numa prateleira: forma-se no campo.

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