Caso Vini: a Espanha corre na campanha e se arrasta no tribunal
O Sevilla retirou o acusado no mesmo dia; o julgamento, adiado pela segunda vez, ficou para 2027. São 1.300 dias de espera — e a impunidade agradece.
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1.300 dias.
É o tipo de número que parece erro de planilha, punição de videogame ou prazo dado por uma repartição que ainda trabalha com fax. Mas não: esse será o intervalo entre o episódio envolvendo Vinícius Júnior no Ramón Sánchez-Pizjuán, em 21 de outubro de 2023, e a nova data prevista para o julgamento do torcedor do Sevilla acusado de ataques racistas contra o brasileiro.
Três anos, seis meses e 22 dias.
Vini precisou de poucos segundos para ouvir a ofensa. A Justiça espanhola precisará, se não houver outro adiamento, até 13 de maio de 2027 para julgá-la.
A ofensa foi instantânea; a resposta judicial ganhou calendário próprio.
Vinícius é a lente inevitável deste caso porque sua participação deveria ter terminado naquela noite. Ele foi ao estádio para jogar uma partida de futebol — empate por 1 a 1 entre Sevilla e Real Madrid, pela décima rodada de LaLiga — e acabou transformado, mais uma vez, em personagem central de uma discussão que não escolheu protagonizar.
Segundo a acusação, entre os minutos 83 e 86, um homem localizado na arquibancada Gol Norte, próxima ao campo, dirigiu-se repetidamente ao jogador com “evidente desprezo” pela cor negra de sua pele. A Promotoria sustenta que o torcedor imitou gestos de primatas, repetiu a palavra espanhola “mono” e reproduziu sons associados a macacos diante do público no estádio e de quem acompanhava a transmissão.
O acusado ainda não foi julgado. É importante dizer isso não por cerimônia, mas por precisão: os atos descritos fazem parte das alegações apresentadas pela Promotoria espanhola. O que já pode ser julgado, porém, é o funcionamento do relógio institucional. E esse tomou um cartão vermelho sem direito a reclamação.
Vini também carrega o processo
O julgamento havia sido marcado inicialmente para 29 de abril de 2026. Três dias antes, foi transferido para 22 de setembro. Quando chegou 22 de setembro, veio o segundo adiamento. A Audiência Provincial de Sevilha remarcou a sessão para maio de 2027, a pedido de uma das partes — a reportagem que revelou a mudança não identificou qual delas.
Adiar uma audiência pode ter justificativa processual. Adiar duas vezes também. O problema é o resultado concreto: Vinícius continuará vinculado ao caso por mais meses, como se não bastasse ter recebido a agressão denunciada. A vítima não carrega apenas a lembrança; carrega datas, expectativa, exposição e a obrigação implícita de continuar esperando.

É aí que a demora deixa de ser simples assunto de agenda. Processo não é entrega de restaurante, claro, e ninguém sério deveria pedir condenação por aplicativo. Mas também não pode avançar no ritmo de um lateral que vai cobrar arremesso aos 48 minutos, troca a bola de mão, limpa a camisa e pergunta ao árbitro onde exatamente deve ficar.
A Promotoria pede um ano e nove meses de prisão por um suposto crime contra a integridade moral de Vinícius. Não se trata, portanto, de uma ocorrência esquecida em alguma gaveta sem consequência pretendida. Há acusação formal, pedido de pena e uma audiência que já encontrou duas maneiras de não acontecer.
Justiça lenta não apaga o racismo; apenas dá tempo para a impunidade parecer rotina.
O Sevilla agiu. O tribunal remarcou
O contraste mais constrangedor está no comportamento do próprio Sevilla. O clube identificou o torcedor, retirou-o do estádio e aplicou seu regulamento disciplinar interno ainda após o episódio. A LaLiga, por sua vez, encaminhou denúncia ao Comitê de Competição da Federação Espanhola e à Comissão Antiviolência.
Houve, portanto, uma reação possível no ambiente do futebol. O Sevilla não precisou esperar 1.300 dias para decidir que aquele comportamento exigia intervenção. Tirou o suspeito da arquibancada e acionou seus mecanismos internos. Já a engrenagem judicial atravessará 2024, 2025 e 2026 para, em tese, chegar a uma sala de audiência em 2027.

Essa diferença desmonta o conforto do discurso institucional. A Espanha sabe reagir depressa quando a resposta cabe numa campanha, numa manifestação pública ou numa medida imediata de estádio. Quando chega a hora de produzir uma decisão judicial, porém, o passo encurta. A campanha corre pela ponta; o processo fica no círculo central pedindo a bola no pé.
Não é preciso antecipar sentença nem atropelar o direito de defesa para reconhecer o óbvio. Uma Justiça que demora tanto enfraquece sua própria autoridade. Para o torcedor comum, a mensagem prática não vem escrita nos autos: ela aparece no intervalo entre o ato denunciado e seu julgamento. Quanto maior a espera, mais fácil acreditar que nada acontece.
E quem paga essa conta simbólica é Vini. O jogador que recebeu a ofensa continua sendo convocado, direta ou indiretamente, a sustentar o assunto. Espera-se que ele denuncie, resista, jogue, responda, explique e ainda tenha paciência com um calendário que já falhou duas vezes. É uma inversão perversa: o sistema se atrasa, mas a vítima é quem precisa demonstrar fôlego.
Vini não deveria precisar ser mais resistente que o racismo e mais paciente que o tribunal.
O maior erro agora seria tratar 13 de maio de 2027 como solução. É apenas uma nova promessa de audiência. Depois de dois adiamentos, a data não merece celebração; merece cobrança. Combater o racismo não é somente retirar o acusado da arquibancada ou produzir a resposta pública correta. É fazer o processo andar sem transformar a espera em parte da punição da vítima.
Quando a resposta chega 1.300 dias depois, a demora já falou antes do juiz.
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