Chelsea dá 23 minutos, Ancelotti dá a 11: Estêvão não pode ser refém de Xabi Alonso

Com cinco gols em cinco jogos como titular, Estêvão merece a confiança de Ancelotti: o banco do Chelsea não pode pautar o futuro da Seleção.

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Ancelotti corta cordas presas a Estêvão e entrega a camisa 11, enquanto Xabi Alonso segura um cronômetro de 23 minutos.

Carlo Ancelotti está certo: Estêvão deve ser titular da Seleção mesmo que Xabi Alonso o trate como figurante de luxo no Chelsea. Na véspera do amistoso contra a Austrália, o italiano não apenas confirmou o garoto entre os onze como lhe entregou a camisa 11. É um gesto técnico, político e necessário. O Brasil entrará em campo nesta sexta-feira, 25 de setembro de 2026, às 7h de Brasília — 20h em Townsville —, no Queensland Country Bank Stadium, com Hugo Souza; Matheuzinho, Marquinhos, Vitor Reis e Douglas Santos; Danilo Santos, Bruno Guimarães e Raphinha; Estêvão, Vinicius Junior e Endrick. Raphinha será o 10, Endrick vestirá a 9 e Vinicius seguirá com a 7. Não há entrelinhas: Ancelotti quer recolocar Estêvão no centro do projeto, independentemente da hierarquia provisória de Stamford Bridge.

O banco do Chelsea não pode ser o VAR do futuro da Seleção.

Os números ingleses são ruins, claro. Pela contagem oficial da Opta, Estêvão somou apenas 23 minutos em quatro aparições na Premier League 2026/27. O levantamento corrido do UOL, com os acréscimos, chega a 47. Não é uma divergência capaz de salvar a situação: seja qual for o cronômetro escolhido, ele jogou pouquíssimo. Começou no banco nas cinco primeiras partidas do Chelsea no campeonato, entrou em quatro e nunca ficou mais de 15 minutos em campo, mesmo considerando o tempo adicional. Contra Fulham, Arsenal, Hull City e Brentford, foi acionado somente depois dos 35 minutos do segundo tempo. Isso não é sequência; é o treinador chamando o atacante quando a festa já está com os garçons recolhendo os copos. Há, porém, outro dado que impede qualquer sentença preguiçosa: Estêvão foi titular nos dois jogos do Chelsea pela Copa da Liga Inglesa e acumulou 126 minutos na competição. Portanto, a discussão não é se ele ainda consegue entrar em campo. É quanto espaço recebe, em qual contexto e com que responsabilidade.

Ancelotti rasga uma sentença diante de Estêvão, protegido por uma camisa 11, enquanto um banco azul segura um carimbo de reserva.

Ancelotti fez o que um técnico de Seleção deveria fazer: analisou o jogador, não a etiqueta colada pelo clube. E foi explícito. “Mesmo se ele não jogar, não tiver minutos no clube, eu vou chamá-lo”, afirmou. Também explicou que o interesse do Chelsea nem sempre coincide com o da Seleção e definiu Estêvão como “muito importante para o futuro”. Perfeito. O Chelsea pensa no próximo jogo do Chelsea, como deve pensar. A Seleção precisa pensar no Brasil. Terceirizar essa avaliação a Xabi Alonso seria uma renúncia disfarçada de prudência, como se o passaporte para a amarelinha tivesse de ser carimbado primeiro em Londres. Técnico de clube administra elenco, calendário e prioridades próprias. Técnico da Seleção escolhe quem serve ao seu modelo. Às vezes as conclusões coincidem. Quando não coincidem, Ancelotti é pago justamente para bancar a dele.

Minuto de fim de jogo mede a urgência do treinador; não mede o teto do jogador.

Estêvão também não está recebendo confiança por lembrança afetiva. Há produção concreta com a camisa do Brasil. Ele encerrou 2025 com cinco gols em cinco partidas como titular sob o comando de Ancelotti. Na última Data Fifa que disputou, em novembro daquele ano, marcou nos dois compromissos: abriu o placar na vitória por 2 a 0 sobre Senegal, no dia 15, e converteu o pênalti do empate por 1 a 1 com a Tunísia, no dia 18. Depois veio a lesão na coxa direita, um afastamento superior a 100 dias e a recuperação que não chegou a tempo da Copa do Mundo de 2026. Esse contexto importa. A ausência não nasceu de queda técnica na Seleção; nasceu de um problema físico sério. Agora, apagar cinco gols em cinco titularidades porque o Chelsea lhe oferece migalhas na Premier League seria premiar o presente mais raso e punir tudo o que Ancelotti já viu de perto.

A camisa 11 não é consolo para Estêvão. É confiança com cobrança.

O momento, aliás, exige convicção, não burocracia. O duelo com a Austrália será o primeiro do Brasil desde a derrota por 2 a 1 para a Noruega, em 5 de julho, nas oitavas de final da Copa do Mundo. A Seleção terminou o torneio na 11ª posição, igualando a segunda pior colocação de sua história em 23 participações. Depois de um fracasso desse tamanho, repetir escolhas por inércia seria o verdadeiro absurdo. Endrick também simboliza a mudança: será titular pela segunda vez com a camisa do Brasil e pela primeira sob Ancelotti, depois de dez partidas consecutivas saindo do banco. Há risco? Evidentemente. Mas reconstrução sem risco é só reforma de fachada.

Estêvão não ganhou imunidade, nem deveria. Se jogar mal, sai. Se não corresponder, perde espaço. O que ele não pode perder é a oportunidade por uma decisão tomada a milhares de quilômetros, dentro de outro projeto e com outros interesses. Ancelotti conhece o rendimento do atacante em sua equipe: cinco gols em cinco jogos como titular. Xabi Alonso conhece as necessidades do Chelsea. Cada um que cuide de sua escalação — e responda por ela.

Quem deve esperar por Estêvão é o Chelsea. O Brasil, não.

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