Diploma em dez dias? Caso Mancuso exige pente-fino nas licenças estrangeiras

Os atletas citados devem explicações, mas o alvo maior é o sistema: CBF e Conmebol precisam revelar se licenças sem validade foram homologadas ou usadas.

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Ex-jogadores recebem quatro diplomas de uma máquina enquanto fiscais procuram uma lupa entre carimbos.

CBF e Conmebol precisam abrir imediatamente um pente-fino público nas licenças estrangeiras citadas no caso Alejandro Mancuso e dizer, sem drible de corpo burocrático, se alguma delas foi homologada ou usada. Esse é o ponto central. Os jogadores envolvidos devem explicar por que aceitaram um atalho tão conveniente, claro, mas reduzir o episódio a uma galeria de ex-craques constrangidos seria a saída mais fácil — e também a mais covarde.

A investigação publicada por Joanna de Assis no UOL, em 7 de outubro de 2026, depois de aproximadamente dois anos de apuração, não descreve uma mera confusão de secretaria. Segundo o trabalho, Mancuso oferecia um pacote com as licenças C, B, A e PRO atribuídas à Associação de Técnicos de Futebol Argentino, a ATFA, por cerca de R$ 100 mil — valor também apresentado como US$ 20 mil. A promessa era entregar tudo em até dez dias.

Dez dias.

A formação regular da ATFA exige três anos de estudos, avaliações e atividades presenciais. Não é preciso possuir Licença PRO para perceber a diferença entre três anos e dez dias. Cabe até uma ironia: conseguir quatro diplomas nesse prazo é mais rápido do que muito clube brasileiro leva para escolher o treinador que demitirá no mês seguinte.

Quando uma formação de três anos cabe em dez dias, não se está acelerando o ensino; está-se esvaziando o diploma.

É justamente por isso que a conversa não pode terminar no recibo, no grupo de mensagens ou no desconforto individual de quem comprou o pacote. Uma licença de treinador não é lembrança de viagem. Ela serve para abrir portas profissionais, atender regulamentos e certificar que seu portador percorreu uma formação mínima. Se o sistema olha primeiro para o sobrenome famoso e só depois — quando olha — para a origem do papel, então não há fiscalização. Há uma chapelaria de documentos timbrados.

Fiscal observa um ex-jogador famoso passando por uma catraca aberta com um diploma.

A posição da ATFA torna indispensável separar suspeita de conclusão. A associação declarou que Mancuso nunca integrou sua diretoria, não possuía vínculo contratual com a entidade e não tinha autorização para cobrar, emitir documentos ou agir em seu nome. Também afirmou que as credenciais atribuídas à instituição e entregues pelo procedimento investigado não têm validade. Mancuso, por sua vez, negou ter vendido certificados falsos ou recebido dinheiro dos atletas. Disse que apenas forneceu contatos para que os interessados tratassem diretamente com a ATFA.

Há ainda um dado jurídico que não pode ser escondido no rodapé: segundo a associação argentina, o caso foi investigado pela Justiça do país em 2025, e o procedimento acabou arquivado em dezembro daquele ano. Não há condenação criminal de Mancuso mencionada nas fontes consultadas. Jornalismo responsável não distribui sentença por atacado. Mas responsabilidade institucional não depende de condenação penal para existir. CBF e Conmebol não precisam julgar crime; precisam saber se seus próprios controles funcionaram.

Os relatos reunidos na apuração, aliás, têm diferenças importantes. Thiago Silva afirmou ter pago acreditando contratar uma formação regular. Recebeu os diplomas no fim de 2023, estranhou a ausência das aulas prometidas e disse nunca ter utilizado as licenças. Felipe Melo contou que passou a desconfiar depois de cobrar repetidamente as atividades presenciais; retirou das redes sociais imagens relacionadas às credenciais e recuperou o valor pago, segundo a investigação.

Essas explicações importam e não devem ser tratadas como detalhe. Elas indicam que houve questionamentos por parte dos próprios compradores. Ao mesmo tempo, não apagam a pergunta incômoda: como uma promessa de quatro licenças em até dez dias pôde parecer minimamente compatível com uma formação séria? Craque também tem obrigação de desconfiar quando o passe vem redondo demais.

Fama não transforma atalho em sala de aula.

O caso de Alex de Souza acrescenta uma camada quase farsesca. Ele já havia concluído sua formação na CBF Academy quando adquiriu o documento argentino e percebeu que o certificado recebido mencionava futsal, não futebol de campo. Alex declarou que nunca apresentou esse documento nem tentou homologá-lo perante a Conmebol. Luiz Gustavo relatou ter recebido históricos escolares com notas de avaliações que, segundo ele, jamais realizou. Diego Lugano disse ter participado de módulos teóricos simplificados pela internet, mas não das atividades presenciais exigidas na formação regular.

Thiago Silva, Felipe Melo, Roberto Carlos, Luiz Gustavo, Diego Lugano, Alex de Souza, Paulinho, Dejan Petkovic e Paolo Guerrero aparecem entre os jogadores ou ex-jogadores citados. Não é uma lista qualquer. Justamente por isso, as respostas precisam ser individuais, precisas e documentadas. Quem pagou? A quem? O que foi prometido? O que recebeu? Tentou homologar? Apresentou a algum clube, federação ou competição? Quem percebeu a irregularidade fez comunicação formal a alguma entidade?

Não se deve presumir que todos agiram da mesma maneira, tampouco que todos utilizaram os documentos. Os relatos conhecidos mostram situações distintas, e algumas negativas de uso são expressas. Mas também não cabe transformar prestígio esportivo em salvo-conduto moral. O currículo dentro de campo não elimina a responsabilidade fora dele. Pelo contrário: ex-jogadores desse tamanho sabem o peso de uma credencial e a influência que seus nomes exercem sobre quem vem atrás.

Ainda assim, parar neles seria errar o alvo maior. Um jogador pode aceitar uma oferta ruim, ser enganado, desconfiar tarde ou agir com imprudência. Já uma confederação existe, entre outras razões, para não depender do grau de cautela de cada candidato a treinador. Se uma licença estrangeira pode produzir efeito esportivo, alguém precisa confirmar sua autenticidade, sua equivalência e seu percurso formativo. Carimbo não é detector de verdade.

Representantes de CBF e Conmebol examinam uma pilha de licenças com um pente gigante.

A urgência não é abstrata. O Manual de Clubes da Copa Sul-Americana de 2026 prevê multa mínima de US$ 50 mil para o clube que inscrever um treinador sem Licença PRO Conmebol. Depois da sanção inicial, o regulamento concede dez dias corridos para regularizar a licença ou apresentar outro profissional habilitado. A coincidência do prazo até parece piada escrita por um cartola com gosto por humor involuntário: dez dias para entregar um pacote de credenciais; dez dias para corrigir a ausência da licença exigida.

Só que a multa revela algo mais sério. Se a ausência de uma Licença PRO válida pode custar ao clube no mínimo US$ 50 mil, a entidade responsável não pode tratar a conferência documental como formalidade de balcão. Há dinheiro, competição e legitimidade envolvidos. Uma credencial inválida eventualmente aceita não prejudicaria apenas quem a apresentou. Colocaria clubes sob risco e pisaria na cabeça dos treinadores que cumpriram anos de formação, avaliações e atividades presenciais.

O diploma vale menos quando o sistema confere a assinatura, mas não confere a história.

O pente-fino, portanto, deve responder ao que realmente interessa: todas as credenciais estrangeiras mencionadas foram consultadas nos bancos de dados das entidades emissoras? Alguma chegou à CBF? Alguma foi apresentada à Conmebol? Houve pedido de equivalência ou homologação? Algum clube inscreveu profissional apoiado em um desses documentos? Em caso negativo, que isso seja dito claramente. Em caso positivo, que se revele onde o controle falhou e quais providências foram tomadas.

Não basta soltar uma nota afirmando que “os procedimentos internos serão avaliados”. Esse idioma, muito popular nos corredores do futebol, costuma significar que o assunto será colocado numa gaveta confortável até a próxima crise. A resposta precisa ser verificável, caso a caso, respeitando as diferenças entre os relatos e sem insinuar culpa onde ela não foi demonstrada.

Também é hora de CBF e Conmebol explicarem qual é o rito para reconhecer uma licença estrangeira. Quem verifica? Com qual fonte? A entidade emissora é consultada diretamente? O histórico de aulas e avaliações é conferido ou basta a aparência do documento? A investigação expôs uma dúvida concreta sobre credenciais sem validade atribuídas a uma associação reconhecível. O mínimo que as autoridades do futebol devem ao público é demonstrar que seus filtros são mais robustos do que um papel bonito carregado por um rosto conhecido.

Os atletas citados não podem se esconder atrás da própria biografia. Devem explicações e, onde houver documentação, devem apresentá-la. Mas o futebol brasileiro adora personalizar um problema sistêmico porque é mais divertido discutir o ex-craque da vez do que examinar o protocolo da confederação. É o velho truque: aponta-se o holofote para o personagem e deixa-se a catraca no escuro.

Um sistema que aceita diploma pela fama do portador não fiscaliza: apenas coleciona papel timbrado.

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