Fora bets, mas sem cheque em branco: premiar a dívida é trocar um vício por outro

O fim das bets é um avanço, mas crédito de R$ 20 bilhões sem auditoria, freios de gastos e punição esportiva pode financiar a próxima dívida dos clubes.

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Dirigente troca um tubo escrito Bets por outro de crédito de R$ 20 bilhões, enquanto contas saem do cofre do clube.

O dirigente empurra uma pilha de boletos para dentro da máquina, aperta o botão verde e respira aliviado. Do outro lado saem parcelas menores, juros mais mansos e um prazo que atravessa mandatos. Antes de deixar a sala, porém, ele liga uma impressora escondida sob a mesa. Pronto: a dívida velha foi refinanciada e a próxima já começou a nascer.

Essa é a imagem que deve perseguir o debate aberto em 25 de setembro de 2026. Em um ato no Recife, Lula afirmou que assinaria à tarde, em São Paulo, uma medida provisória para encerrar as apostas: “Uma delas é para acabar com as bets”. Romper a dependência do futebol em relação às casas de apostas é um avanço. O problema é imaginar que, depois de desligar essa máquina, basta conectar outra na tomada.

Trocar dívida cara por dívida barata é gestão; usar o alívio para voltar a gastar é recaída.

O governo federal e os clubes negociam uma linha de crédito de até R$ 20 bilhões, provisoriamente chamada de Programa Nacional de Reestruturação Financeira do Futebol Profissional. A proposta prevê juros menores, vinculados ao BNDES, para clubes e SAFs substituírem passivos caros por financiamentos mais baratos. O dinheiro viria do superávit financeiro de 2025, mas os empréstimos seriam concedidos por bancos habilitados, que ficariam com o risco de crédito — não diretamente a União.

É importante separar as coisas. Não se trata, ao menos no desenho divulgado, de perdão de dívida. O prazo previsto é de até 20 anos, com dois de carência. O recurso poderia quitar débitos trabalhistas, direitos de imagem, obrigações com Receita Federal, INSS e FGTS, empréstimos bancários, dívidas cíveis e obras na base. Não poderia bancar salário corrente, contratação, despesa operacional nem dividendos de proprietários de SAFs.

No papel, a máquina tem bons filtros. Se houver uso irregular ou inadimplência, a dívida venceria antecipadamente e o beneficiário seria excluído do programa. Só que essas travas controlam a saída do dinheiro, não o comportamento de quem fica na cabine de comando.

Máquina reduz dívidas antigas enquanto dirigente imprime novas contas e auditor tenta desligar o equipamento.

Nada impede, por exemplo, que o clube use o financiamento para limpar passivos antigos e, no dia seguinte, infle a folha com receitas próprias, antecipe contratos ou assuma novas obrigações incompatíveis com o caixa. Seria como consertar o motor e devolver a chave ao sujeito que dirigia olhando apenas para o retrovisor. O refinanciamento organiza ontem. Sem regras adicionais, não protege amanhã.

Os números explicam por que o cheque em branco seria um desatino. Segundo a EY, os 20 clubes analisados faturaram R$ 14,9 bilhões em 2025 e terminaram o ano com endividamento líquido conjunto de R$ 14,3 bilhões — crescimento de 15% sobre 2024. Atlético-MG, Corinthians e São Paulo fecharam o período com dívidas líquidas equivalentes a 3,44, 2,81 e 2,24 vezes suas receitas anuais, respectivamente.

Eis o tamanho da engrenagem: o teto de R$ 20 bilhões discutido supera em R$ 5,7 bilhões todo o endividamento líquido desses 20 clubes, embora o programa também possa atender times da Série B e SAFs. Internacional e Corinthians participaram de uma reunião com integrantes do governo cerca de um mês antes do anúncio, enquanto a CBF atua na articulação. Não é uma conversa de cafezinho. É uma reforma potencialmente gigantesca no financiamento do futebol brasileiro.

Dinheiro barato sem disciplina cara vira combustível para a próxima crise.

O programa só deveria avançar com auditoria independente obrigatória, demonstrações padronizadas e fiscalização periódica. Também precisa impor limites objetivos para folha salarial e contratações, calculados sobre receitas recorrentes — não sobre projeções otimistas, venda futura de jogador ou aquele patrocínio “quase fechado” que habita a mesma gaveta do estádio prometido em campanha eleitoral.

Dirigentes que produzirem nova insolvência por fraude, desvio ou irresponsabilidade comprovada devem responder pessoalmente, respeitado o devido processo. Excluir o clube do programa e antecipar a dívida é pouco quando o cartola já deixou o cargo e a conta caiu no colo da torcida. A punição precisa alcançar quem apertou o botão, não apenas a máquina.

Árbitro expulsa dirigente diante de auditora e traves com limites de folha e contratações.

Sem punição esportiva, o mau dirigente sempre escala o próximo presidente para pagar a conta.

Reincidentes deveriam enfrentar restrições de registro de atletas, bloqueios de contratações e, nos casos graves, perda de pontos ou outras sanções esportivas. Dói? Claro. Mas é justamente por doer que funciona. No futebol, a ameaça financeira costuma virar nota oficial; a ameaça à tabela transforma até reunião de conselho em vigília democrática.

Há uma transição real a administrar. Os clubes estimam perder aproximadamente R$ 1 bilhão por ano apenas em patrocínios diretos se as bets forem proibidas. Casas de apostas já notificaram equipes das Séries A e B sobre a possibilidade de rescisão imediata, e alguns clubes começaram a procurar empresas de outros setores. O governo faz bem em não ignorar esse impacto. Socorrer a adaptação, contudo, não pode significar premiar quem transformou receita extraordinária em despesa permanente.

A máquina de refinanciamento pode ser útil, até necessária. Mas auditoria, freio de gastos, responsabilização e punição esportiva precisam estar no mesmo painel — e com o fio da impressora de novas dívidas arrancado da tomada.

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