Rayan salvou o empate. Ancelotti precisa enterrar o 4-2-4

Rayan evitou a derrota diante da Austrália, mas o 1 a 1 expôs a contradição de Ancelotti: reclamar da falta de meias e insistir no 4-2-4.

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Ancelotti monta quatro atacantes em uma prancheta quebrada enquanto três peças de meio-campo ficam no banco.

A bola bateu no travessão e caiu depois da linha. Aos 90+4, Rayan apareceu entre os australianos para cabecear a cobrança de Raphinha e impedir que a Seleção começasse o ciclo pós-Copa com uma derrota. O atacante havia entrado aos 76 minutos, no lugar de Estêvão. Precisou de pouco tempo para fazer o que o Brasil inteiro já não conseguia: chegar no momento certo ao lugar certo.

Rayan salvou o placar. Não salvou a ideia.

O 1 a 1 em Townsville pode ser embalado como aquele empate de amistoso que logo desaparece da memória. Seria cômodo — e profundamente enganoso. O gol do jovem atacante evitou um resultado pior, mas não apagou a atuação espaçada, vulnerável e sem comando territorial diante de uma seleção que ocupava o 28º lugar do ranking da Fifa. O Brasil era o quinto.


Oito bandeiras de escanteio pareciam se acumular ao redor da área brasileira ainda no primeiro tempo. Não eram oito no jogo inteiro. Eram oito antes do intervalo.

A Austrália não precisava tocar a bola como quem resolve um cubo mágico. Bastava avançar pelos espaços oferecidos. Nestory Irankunda já havia obrigado Hugo Souza a fazer uma defesa difícil antes de abrir o placar, aos 68 minutos, em cobrança direta de falta que passou à esquerda da barreira.

O Brasil também teve sua chance: Estêvão marcou no fim da primeira etapa, mas o VAR anulou o gol por uma falta em Harry Souttar durante a construção da jogada. Havia talento ofensivo, portanto. O que não havia era controle.

O placar às vezes mente. Oito escanteios em um tempo costumam ser menos diplomáticos.

Ancelotti colocou Danilo Santos e Bruno Guimarães atrás de Raphinha, Estêvão, Endrick e Vinicius Júnior. Quatro atacantes, dois homens por dentro e um campo enorme para cobrir. Era como mandar um ônibus para a estrada com quatro motores na frente e duas rodinhas de carrinho de feira no meio. Bonito na arrancada; preocupante na primeira curva.

Rayan segura com uma corda um ônibus da Seleção com quatro motores e apenas duas rodas centrais.


Dias antes, Ancelotti havia feito um diagnóstico público: “Há carência de meio-campistas, e a CBF espera que, nos próximos quatro anos, o futebol brasileiro possa produzir meio-campistas.”

A frase faz sentido. A escalação, não.

Se o treinador enxerga falta de meio-campistas, por que organiza a equipe para depender ainda mais dos poucos que escala? Danilo Santos e Bruno Guimarães receberam uma missão ingrata: sustentar quatro homens ofensivos, proteger a defesa e ainda dar saída à equipe. Não era uma dupla de meio-campo; era uma força-tarefa.

E havia alternativas no banco. Andrey Santos, Breno Bidon e Gabriel Bontempo permaneceram sentados durante todo o jogo. Douglas Luiz foi o único meio-campista reserva utilizado. A questão nem é afirmar que um deles resolveria tudo — pedir isso seria transformar banco de reservas em balcão de milagres. O problema foi Ancelotti trocar peças sem corrigir o desenho que produzia os buracos.

Agora as três cenas se encontram: o cabeceio salvador de Rayan, a coleção australiana de escanteios e a declaração sobre a escassez de meias falam da mesma coisa. O Brasil sofreu no meio porque escolheu esvaziá-lo.

No reencontro com a Austrália, em 29 de setembro, às 7h de Brasília, no Suncorp Stadium, em Brisbane, não basta mudar nomes. É preciso colocar um terceiro jogador por dentro, aproximar os setores e devolver à Seleção algo que quatro atacantes não compram no atacado: controle.

O maior erro de Ancelotti seria retocar o 4-2-4 quando o que ele precisa fazer é enterrá-lo.

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