Hulk custou zero. Agora o Fluminense precisa girar ao redor dele

Com sete gols e quatro assistências em 15 jogos, o atacante de 40 anos deixou de ser plano B: contra o Palmeiras, o Fluminense deve jogar por ele.

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Hulk aparece como um motor de 40 anos puxando o ônibus do Fluminense rumo à semifinal da Libertadores.

Todo mundo está tratando Hulk como uma bela solução de emergência. Está errado. Aos 30 minutos do segundo tempo, em Itaquera, ele deixou de ser a resposta provisória para virar a pergunta central do Fluminense: como aproveitar ao máximo o jogador mais decisivo do elenco?

O segundo gol do atacante naquela noite colocou o time novamente em vantagem contra o Corinthians. Hulk já havia marcado aos 23 minutos do primeiro tempo; Gustavo Henrique empatou aos 10 da etapa final, e Kevin Serna fechou o 3 a 1 aos 47. A vitória levou o Tricolor a 48 pontos e à terceira colocação provisória do Brasileiro, antes do fim de Athletico-PR x Bahia.

Não foi apenas uma grande atuação. Foi a confirmação de uma mudança de hierarquia.

Hulk custou zero na transferência, mas hoje custa caro deixá-lo fora do centro do plano.

Depois de 15 partidas oficiais pelo Fluminense, são sete gols e quatro assistências. Onze participações diretas em gols. Aos 40 anos, completados em 25 de julho, Hulk não está entregando “minutos úteis”, “experiência de vestiário” ou qualquer outro eufemismo normalmente usado para justificar veterano contratado no fim da carreira. Está decidindo jogos.

E aqui convém voltar algumas casas, porque a história começou com expectativas bem menores. O Fluminense trouxe Hulk sem pagar taxa de transferência ao Atlético-MG e assinou contrato até 31 de dezembro de 2027. A ideia inicial era tê-lo como alternativa a John Kennedy. Parecia um negócio de baixo risco, com cheiro de nostalgia e utilidade pontual.

A lesão grave no joelho de John Kennedy, cujo retorno é estimado apenas para março de 2027, antecipou a necessidade. Hulk assumiu a titularidade. O que parecia remendo virou estrutura.

Hulk passa por um caixa com preço zero ao lado de fichas representando sete gols e quatro assistências.

Nenhum reforço tricolor entregou tanto, tão depressa e por um custo de aquisição tão baixo nesta temporada. O caixa registrou zero, a esteira trouxe sete gols e quatro assistências, e a diretoria ficou com aquele recibo que a gente confere duas vezes para ter certeza de que o supermercado não errou.

O calendário vê 40 anos. A bola vê 11 participações em gols.

Ainda assim, existe uma tentação perigosa: administrar Hulk como “veterano de luxo”. Poupar por reflexo, reduzir sua influência por precaução, encaixá-lo num sistema pensado sem ele e esperar que resolva quando a coisa apertar. Isso seria como escalar o centroavante para segurar a placa de substituição: até pode ajudar, mas não foi para isso que ele chegou.

A Libertadores já mostrou o tamanho do equívoco. Nas quartas de final contra o Platense, Hulk participou diretamente dos três gols do Fluminense. Marcou e deu uma assistência na vitória por 2 a 0 no Maracanã; na Argentina, serviu Canobbio na derrota por 2 a 1. O Tricolor avançou por 3 a 2 no placar agregado.

Aos 40 anos e 45 dias, tornou-se o jogador mais velho desde pelo menos 2013 a marcar e dar uma assistência na mesma partida de uma competição da Conmebol, segundo levantamento da própria entidade. O dado é bonito, rende homenagem e certamente vai parar em alguma moldura. Mas seu valor real é outro: Hulk não está sobrevivendo ao nível continental. Está interferindo nele.

A transformação ganha ainda mais peso diante do contexto. Luis Zubeldía foi demitido em 13 de agosto, após oito partidas oficiais sem vitória, e Marcão assumiu. Em um time atravessado por troca de comando e pela ausência prolongada do atacante que seria a primeira opção, Hulk ofereceu algo raríssimo: produção imediata.

Isso não significa entregar a bola a ele e torcer. Jogar ao redor de Hulk não é terceirizar o ataque, muito menos pedir que um homem de 40 anos brigue sozinho contra uma defesa inteira enquanto os companheiros assistem de camarote. É organizar o time para aproximá-lo da área, criar opções de passe ao redor, atacar os espaços que surgem quando ele participa e não obrigá-lo a gastar energia longe da zona em que pode machucar o adversário.

É uma escolha tática — e também uma escolha de coragem.

Hulk ocupa o centro de uma prancheta, com jogadores do Fluminense ao redor e setas apontadas para o Palmeiras.

Nas semanas de 14 e 22 de outubro, o Palmeiras estará do outro lado na semifinal da Libertadores. Esse não é o momento de tratar Hulk como bônus. Marcão precisa montar a equipe a partir dele, controlar sua carga sem diminuir seu protagonismo e entender que a melhor forma de preservar um jogador decisivo é fazê-lo decidir onde realmente importa.

Depois dos dois gols em Itaquera, Hulk disse: “A gente merece viver bons momentos aqui, conquistar coisas importantes, que é o nosso objetivo.” A frase não soa como despedida elegante de um veterano. Soa como aviso de quem ainda pretende ocupar o palco principal.

Contra o Palmeiras, prudência não pode virar covardia tática.

Hulk chegou para compor elenco. Em outubro, o elenco terá de compor para Hulk.

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