Neymar Pai no Santos: a cadeira de CEO virou palanque com crachá

A 36 dias da eleição, Neymar Pai assume um cargo cercado pelos negócios da NR Sports. O Santos deve publicar o contrato — ou suspender a nomeação.

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Marcelo Teixeira entrega uma chave de CEO a Neymar Pai diante de uma porta com fechaduras e uma urna eleitoral.

Quem, em sã consciência, entrega a cadeira de CEO a um parceiro comercial e credor do clube a 36 dias da eleição — e ainda chama isso de profissionalização?

Foi essa a pergunta que atravessou as mesas de bar em Santos depois do anúncio de Neymar da Silva Santos, o Neymar Pai, em 6 de novembro. Ele terá atuação estratégica no futebol, no marketing e em novos negócios. O contrato é remunerado, vale até dezembro de 2026 e sua continuidade em 2027 depende da reeleição de Marcelo Teixeira.

A cadeira, portanto, já chegou à Vila Belmiro com uma corrente presa à urna.

Quando a permanência do executivo depende da vitória do presidente, o crachá deixa de ser neutro.

A eleição será em 12 de dezembro. O prazo para inscrição das chapas termina no dia 22 de novembro. Teixeira enfrenta Ivan Luduvice, Maurício Maruca e José Renato Quaresma. Não estamos falando de uma contratação feita no sossego de janeiro, com plano de longo prazo, metas divulgadas e processo transparente. Estamos falando de uma nomeação no coração da campanha.

O timing não é um detalhe. É o móvel inteiro.

Neymar Pai afirmou: “Se você não planejar agora e ficar esperando decisões políticas, nós não vamos estar pensando no Santos Futebol Clube.” A frase parece razoável isoladamente. Clube nenhum pode hibernar enquanto seus dirigentes contam votos. Mas há uma ironia difícil de driblar: a solução apresentada para escapar das decisões políticas tem a permanência condicionada justamente a uma decisão política.

É como instalar um detector de fumaça dentro da churrasqueira.

Cadeira de CEO presa a uma urna eleitoral ao lado de contrato, camisa, placas publicitárias e boletos.

O Santos também não divulgou o valor da remuneração, os limites da autonomia contratual nem o mecanismo que separará o cargo executivo dos negócios particulares da família. O título de CEO sequer aparece expressamente no estatuto, que entrega a administração ao Comitê de Gestão e mantém o presidente como representante legal do clube.

Isso não torna o cargo automaticamente ilegítimo. O posto, aliás, estava vago desde a saída de Pedro Martins, oficializada em 31 de maio de 2025. Torna, porém, indispensável explicar o tamanho da cadeira: quem pode assinar, negociar, contratar, vetar e representar? CEO de quê, com poder até onde e submetido a quem?

Sem essas respostas, sobra um título pomposo circulando pela Vila como volante que corre de um lado para o outro sem saber quem deve marcar.

E existe um problema maior que o calendário eleitoral: o emaranhado comercial. A NR Sports pagou aproximadamente R$ 12 milhões para encerrar o transfer ban causado pela dívida do Santos com o Monaco. Em contrapartida, recebeu seis espaços publicitários no uniforme para negociar patrocínios.

Além disso, o clube reconheceu R$ 90,5 milhões em direitos de imagem de Neymar, antecipou pouco mais de R$ 11 milhões e repactuou com a NR Sports um saldo próximo de R$ 80 milhões. Os pagamentos mensais ficam perto de R$ 1 milhão e o acordo pode alcançar meados de 2033.

Ou seja: quem ocupará a cadeira executiva pertence à família que controla a empresa situada do outro lado de contratos relevantes com o próprio Santos. Isso não é uma suspeita sobre caráter. É um conflito objetivo de posições — e governança séria existe precisamente para não depender da virtude individual de ninguém.

Transparência não é acusação; é o cinto de segurança de quem administra dinheiro alheio.

A situação fica ainda mais delicada porque Neymar Pai presidirá o Instituto Meninos da Vila, responsável por cuidar das carreiras de jogadores da base, e participará da gestão do projeto Ídolos Eternos. Ao mesmo tempo, estará envolvido em futebol, marketing e novos negócios. Executivo, parceiro comercial, credor e gestor de carreiras: são chapéus demais para uma cabeça só, mesmo para quem passou a vida negociando sob os holofotes.

Neymar Pai usa quatro chapéus com funções diferentes enquanto um árbitro procura um cartão de impedimento.

Há ainda Neymar Jr., contratado até 31 de dezembro de 2026. A conversa sobre uma eventual renovação ficou para depois da eleição. Quem representará os interesses do Santos nessa mesa? Quem se declarará impedido? Quem aprovará as condições? Essas respostas precisam existir antes da negociação, não depois de um aperto de mãos e uma fotografia sorridente.

O Comitê de Gestão deveria suspender a nomeação imediatamente até que o contrato completo seja publicado. Não um resumo publicitário, não uma nota recheada de “sinergia” e “visão estratégica”. O documento: remuneração, poderes, metas, cláusulas de saída, autonomia e responsabilidades.

Depois, precisa aprovar regras formais de impedimento. Neymar Pai não deve participar de decisões relacionadas ao contrato de Neymar Jr., à dívida de imagem, à NR Sports, aos patrocinadores negociados nos espaços cedidos no uniforme nem aos atletas cujas carreiras estejam sob o Instituto Meninos da Vila. Cada afastamento precisa ser registrado, com decisão atribuída a dirigentes sem interesse no assunto.

Isso é ainda mais urgente num clube cujo passivo foi calculado em R$ 1,241 bilhão pelo Conselho Fiscal ao fim do segundo trimestre de 2026 — enquanto o balancete da diretoria apontou R$ 1,193 bilhão. Com uma diferença dessas dentro da própria fotografia financeira, improvisar controles seria brincar de roleta com o cofre aberto.

Dentro de campo, o Santos acaba de perder por 2 a 1 para o RB Bragantino. Nos cinco resultados recentes, foram duas derrotas, dois empates e uma vitória. Há urgência esportiva, claro. Mas urgência não autoriza atropelar governança; é justamente quando a água sobe que o clube precisa saber quem segura o leme e quem está cobrando a passagem.

Marcelo Teixeira pode até acreditar que encontrou experiência, influência e capacidade de abrir portas. O erro foi apresentar como executivo independente alguém amarrado a relações comerciais, financeiras, esportivas e eleitorais com sua gestão. Nesse desenho, Neymar Pai não chega apenas para trabalhar pelo Santos. Chega também como símbolo político de um projeto de poder que pedirá votos em poucas semanas.

Profissionalização sem independência é só política de terno.

Se o contrato permanecer escondido e os impedimentos não forem definidos, a cadeira de CEO continuará parecendo exatamente o que hoje parece: um palanque giratório com crachá.

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