Quatro minutos viraram indefensáveis: Endrick salvou Mourinho da própria teimosia

Decisivo na virada sobre a Roma, Endrick expôs a contradição de Mourinho: quem barrou sua saída já não pode condená-lo ao banco do Real Madrid.

Publicado em

Mourinho ao lado de uma redoma quebrada por Endrick, com um relógio de quatro minutos e placares de 3 a 1 e 4 a 3.

Roma ganhou um Maracanazo ao avesso, guardadas todas as proporções que a história exige. Em vez de um estádio inteiro vendo o roteiro escapar para o visitante, foi o Estádio Olímpico que assistiu a uma vitória doméstica praticamente pronta ser desmontada por um brasileiro saído do banco. Endrick entrou aos 59 minutos, logo depois de Donyell Malen marcar o terceiro gol da Roma, com o Real Madrid perdendo por 3 a 1. Não recebeu uma partida; recebeu um incêndio. E fez o que atacante grande costuma fazer quando o treinador finalmente larga o extintor: correu em direção às chamas.

Quatro minutos em oito jogos não eram cautela. Eram desperdício.

A virada por 4 a 3, em 14 de outubro de 2026, pela segunda rodada da fase de liga da Champions, não permite que José Mourinho trate a atuação de Endrick como um bilhete premiado encontrado por acaso no bolso do casaco. O brasileiro vinha de empréstimo ao Lyon, onde somou oito gols e sete assistências em 21 partidas na reta final da temporada 2025/26. Roma e Milan fizeram contatos com seu estafe, e havia até um acordo encaminhado com a própria Roma na janela anterior. Foi Mourinho quem pediu a permanência. Na véspera do reencontro, o português ainda mandou um recado aos interessados: “Esqueçam. É melhor sentarem para esperar, senão vão ficar cansados”. A frase tinha a arrogância divertida que acompanha Mourinho desde sempre. O problema é que, para sustentar tamanho peito estufado, era preciso usar o jogador. Barrar a saída, chamar o atacante para o projeto e oferecer apenas quatro minutos nos oito primeiros jogos da temporada é como comprar um extintor e deixá-lo trancado no armário enquanto a cozinha pega fogo. Aos 20 anos, Endrick não precisa ser protegido do futebol; precisa jogar futebol. E o Olímpico forneceu uma espécie de prova pericial. O Real ainda perdia por 3 a 1 aos 83 minutos quando uma cabeçada sua foi defendida por Pierluigi Gollini, e Carlos Espí aproveitou o rebote para diminuir. Aos 87, após escanteio de Arda Güler, Endrick empatou — de cabeça outra vez. Aos 89, também em cobrança de escanteio de Güler, Antonio Rüdiger completou a virada. Endrick não venceu sozinho, porque futebol não é videogame no modo carreira, mas mudou sozinho a temperatura da partida. Deu presença à área, impôs desconforto à defesa e transformou uma equipe resignada em uma equipe faminta. A escolha da Uefa como melhor jogador de Roma 3 x 4 Real Madrid apenas carimbou o que os olhos já haviam percebido.

Mourinho diante de um cronômetro de quatro minutos em um tribunal, com Endrick segurando uma bola e representantes de Roma e Milan na porta.

Quem impede um jogador de sair assume a obrigação de lhe dar caminho para entrar.

Depois da partida, Mourinho afirmou: “Não é para emprestar, não é para vender, porque ele é jogador de nível Real Madrid, e hoje foi a noite dele”. Ótimo. Então acabou a zona cinzenta. Se Endrick tem nível de Real Madrid, deve integrar de verdade a rotação do Real Madrid. Não como amuleto para os minutos finais, nem como decoração cara no banco, muito menos como argumento de coletiva para afastar clubes interessados. Mérito não pode valer apenas na noite em que salva o treinador. O maior erro agora seria transformar Roma numa exceção conveniente: bonita para o vídeo da Champions, inútil para a escalação seguinte. Endrick, aliás, não fez juras de paciência eterna. “Se for para sair em janeiro, vou sair. Se for para ficar, vou ficar”, declarou. Não houve ameaça; houve lucidez. O jogador sabe que carreira curta não combina com sala de espera. E Mourinho perdeu o direito de pedir paciência depois de ter sido justamente quem fechou a porta da transferência.

Endrick usa um prêmio como chave para abrir o cadeado de um banco, enquanto Mourinho segura a corrente.

A suspensão de Vini Jr. por quatro partidas de LaLiga oferece ao treinador uma saída que chega quase embrulhada para presente. O brasileiro desfalcará o Real contra Sevilla, Barcelona, Racing Santander e Valencia. A primeira resposta precisa aparecer já diante do Sevilla, em 18 de outubro. Depois vêm o RB Leipzig, pela Champions, no dia 21, e a visita ao Barcelona, no dia 25. Endrick deve ser titular contra o Sevilla e receber minutos relevantes nessa sequência — não por gratidão, mas porque conquistou esse espaço no campo. Se Mourinho realmente acredita no que disse, eis a oportunidade de provar. Se voltar a escondê-lo, ficará claro que o discurso serviu apenas para proteger o elenco no mercado e o próprio treinador após uma noite caótica.

Ou Endrick é jogador de nível Real Madrid, ou Mourinho é técnico de nível desculpa.

Compartilhar:WhatsAppX

Receba as próximas matérias

As melhores matérias do futebol brasileiro no seu e-mail, sem spam.

Ao assinar, você concorda em receber nossos e-mails. Pode cancelar quando quiser.