R$ 4 bilhões não compram saída: o Vasco deve rejeitar a SAF de Lamacchia como está

Após o trauma com a 777, o sócio deve rejeitar a venda de 90% da SAF sem cláusula clara para o Vasco retomar o controle em caso de descumprimento.

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Almirante vascaíno entrega parte do leme a empresário diante de uma saída emparedada e de um navio marcado 777.

E se der errado de novo, quem devolve o Vasco ao Vasco?

A pergunta é incômoda porque todo mundo já conhece a resposta disponível no contrato: ninguém, automaticamente. E, depois da 777, aceitar isso seria menos ingenuidade do que reincidência.

Cena um: a bola cobre o papel

O Vasco voltou da Bombonera com uma vitória por 1 a 0 sobre o Boca Juniors. A volta da semifinal da Sul-Americana será no Maracanã, em 20 de outubro, com a chance de levar o clube à primeira final continental desde 2000.

É a noite que ocupa a cabeça do torcedor, e com razão. Arquibancada não foi inventada para discutir cláusula de inadimplência. Foi inventada para cantar, sofrer e reclamar do juiz antes mesmo de ele errar.

Três dias depois, porém, os sócios decidirão algo muito mais duradouro do que uma classificação. A AGE de 23 de outubro, das 10h às 20h, será híbrida, com votação presencial na Sede Náutica da Lagoa e participação remota.

Confetes do dia 20 de outubro cobrem um contrato e uma urna no dia 23 do calendário.

Vitória grande não pode assinar contrato.

O perigo está justamente nessa proximidade. Se o Vasco eliminar o Boca, haverá euforia. Se cair, haverá ansiedade. Nos dois casos, o estado emocional será péssimo conselheiro para entregar 90% da SAF em caráter definitivo.

Cena dois: o número entra de terno

Na reunião de 6 de outubro, Alan Belaciano, presidente da Assembleia Geral, apresentou a operação como uma venda de R$ 4 bilhões por 90% da SAF. O Conselho Deliberativo aprovou a venda por 175 votos a 26, com três abstenções. A reforma estatutária passou por 172 votos a 34, além de cinco abstenções.

Quatro bilhões impressionam. Fazem barulho. Entram na sala antes do empresário e ainda pedem uma cadeira reforçada.

Só que essa cifra não é um pagamento imediato ao Vasco. A conta pública reúne aproximadamente R$ 1 bilhão para dívidas judiciais e tributárias, R$ 1,5 bilhão para déficits projetados durante cinco anos, R$ 500 milhões para o futebol e R$ 150 milhões para centros de treinamento.

Os R$ 500 milhões obrigatórios do futebol seriam pagos em cinco parcelas anuais de R$ 100 milhões, corrigidas pelo INPC, entre 2026 e 2030. Para o CT profissional, estão previstos R$ 120 milhões ao longo de dez anos; para a infraestrutura da base, R$ 30 milhões em dois.

Há ainda um detalhe enorme escondido dentro da planilha: os R$ 1,5 bilhão para cobrir déficits são uma projeção. Como o Vasco foi estimado com receitas anuais de cerca de R$ 500 milhões e despesas próximas de R$ 800 milhões, calculou-se um rombo de R$ 300 milhões por temporada. Se a nova gestão aumentar receitas ou reduzir despesas, o aporte nessa rubrica poderá ser menor.

Tratar os R$ 4 bilhões como um Pix na conta do clube é como comemorar gol num cruzamento que ainda está viajando pelo ar.

Número gigante também cabe em contrato frágil.

Cena três: o cofre sem chave

O acordo impede Lamacchia de vender as ações ou distribuir lucros durante dez anos. Parece proteção. O problema aparece quando se pergunta o básico: e se os aportes não forem cumpridos?

A resposta prevista são multas, não a devolução automática das ações ao clube.

Empresário segura cofre da SAF enquanto torcedor procura a chave de uma porta de devolução soldada.

O Conselho de Beneméritos alertou que não há mecanismos claros para o Vasco encerrar ou rever a operação em caso de inadimplência, perda de capacidade financeira do investidor ou mudança relevante das condições econômicas. O parecer também apontou a possibilidade de interferência do investidor na escolha do representante do clube no Conselho de Administração da SAF e destacou o caráter definitivo da transferência.

Definitivo para um lado; multa para o outro. Conveniente demais.

A operação ainda é analisada pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol por causa da garantia do Banco Crefisa e da relação de Marcos Lamacchia com Leila Pereira, presidente do Palmeiras. A Almirante sustenta que eventual restrição da agência não desfaria judicialmente o negócio. Mais um motivo para exigir, no próprio contrato, uma saída inequívoca.

Multa cobra o prejuízo; controle recuperado impede que ele vire destino.

As três cenas falam da mesma coisa: distração. A bola distrai pela paixão, o bilhão distrai pelo tamanho e a multa distrai pela aparência de segurança.

Em 2022, 79,44% dos votantes aprovaram a venda de 70% da SAF à 777 Partners: 3.898 votos pelo “sim”, 976 pelo “não”, 18 nulos e 15 em branco. Em 2024, o próprio Vasco afirmou ter conseguido o afastamento judicial da empresa após denunciar atos abusivos, gestão temerária e risco de colapso financeiro da SAF.

Não é preciso demonizar Lamacchia nem fingir que investimento não faz falta. É preciso aprender. O sócio deve votar “não” ao contrato atual. A proposta pode ser corrigida e voltar à votação com cláusulas objetivas de retomada do controle diante de descumprimento grave, inadimplência ou incapacidade financeira.

Recusar agora não é fechar a porta ao dinheiro. É se recusar a soldar a porta de saída.

Cheque se renegocia. O Vasco, não.

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